Foto: Manoella Mello/Globo
Antes mesmo de um personagem pronunciar sua primeira fala, a novela já começou. Ela começa na escolha das cores, na composição dos enquadramentos, na textura dos cenários e na atmosfera que envolve cada cena. Para o diretor artístico André Câmara, a linguagem visual não é um complemento da dramaturgia, mas parte dela.
Ao Pittaplay, o diretor abre seu processo criativo e revela como construiu a identidade estética de Por Você, próxima novela das sete da Globo, marcada para estrear em 17 de agosto. Ao revisitar suas experiências em Amor Perfeito e Volta por Cima, André mostra que cada obra nasce de uma pesquisa própria e que a direção artística começa muito antes das câmeras entrarem em ação: “Antes de pensar em cenários, figurinos ou fotografia, procuro encontrar uma ideia estética que sintetize a alma da história. É como se cada obra tivesse uma cor, uma textura, uma respiração e uma forma particular de olhar para o mundo”, explica.
Segundo ele, esse processo não parte de uma simples coleção de referências visuais. Pintura, cinema, arquitetura, fotografia e design são incorporados como instrumentos para ampliar o significado da narrativa: “Esse processo sempre nasce do encontro entre dramaturgia e outras linguagens artísticas, pintura, cinema, fotografia, arquitetura e design, não como citações, mas como formas de produzir significado”.
A pintura como ponto de partida
Ao recordar Amor Perfeito, trama exibida entre 2022 e 2023, também às 18h, André explica que a novela apresentava muitos elementos do cinema noir: personagens marcados pelo passado, culpa, segredos e destinos aparentemente inevitáveis. Ainda assim, reproduzir literalmente essa estética nunca foi o objetivo: “O desafio era fazer com que o noir encontrasse a pintura. A sombra permanecia, mas a cor surgia como possibilidade de esperança”.
Foi nesse momento que a obra de Heitor dos Prazeres passou a orientar toda a construção visual da novela: “Seus quadros trazem uma alegria profundamente brasileira, mas nunca ingênua. Há festa, música, movimento, comunidade e afeto, mas também uma dignidade muito particular na maneira como retrata os corpos negros”.
Mais do que a exuberância das cores, o que chamou sua atenção foi a postura dos personagens retratados pelo artista: “Sempre me chamou atenção a altivez dessas figuras. Elas parecem ocupar o mundo com naturalidade, olhando para o horizonte, conscientes da própria existência”.
Para André, essa percepção atravessou toda a identidade visual de Amor Perfeito.
Representatividade também se constrói pela imagem

Essa pesquisa estética continuou em Volta por Cima, agora inspirada na obra do artista plástico Zé Palito: “Suas cores vibrantes, sua celebração da cultura popular e, sobretudo, a presença de pessoas negras vivendo experiências de potência, alegria, prosperidade, humor e pertencimento dialogavam profundamente com a novela”.
Na avaliação do diretor, a representação não acontece apenas pelo texto ou pelos conflitos dramáticos. Ela também nasce da maneira como os personagens são enquadrados e ocupam o espaço: “Mais do que representar a população brasileira, interessava construir imagens capazes de ampliar o imaginário sobre quem ocupa determinados espaços”.
Ele reforça que essa escolha também possui impacto na memória do público: “A televisão forma memória afetiva. Por isso, colocar personagens negros vivendo histórias de amor, liderança, sucesso e complexidade também é uma escolha de linguagem”.
O branco e a cor contam a história de Por Você
Em sua nova novela, André parte de referências bastante distintas entre si para construir uma linguagem inédita: “A novela nasce de um diálogo entre referências muito distintas: o rigor geométrico de Stanley Kubrick, a precisão gráfica de Wes Anderson, a força simbólica das cores de Andy Warhol, o humanismo de Paris, Texas e, sobretudo, a dimensão afetiva de Pedro Almodóvar em Volver.”
Apesar das diferenças entre esses artistas, existe um ponto comum: “São artistas muito diferentes entre si, mas todos compreendem que a cor nunca é apenas um elemento decorativo. Ela narra emoções”.
Ao lado dessas referências cinematográficas, a pintura de Fernanda Santos tornou-se outro eixo fundamental da pesquisa estética: “Sua pintura coloca pessoas negras no centro da imagem com enorme potência simbólica. Existe delicadeza, sofisticação, força e pertencimento”.
Foi justamente dessa pesquisa que nasceu uma das decisões visuais mais importantes de Por Você: a relação entre o branco e as cores: “O branco torna-se a materialização da ausência. É a presença do luto, da memória, daquilo que continua existindo mesmo depois da perda”.
Segundo André, como toda a narrativa parte da morte de uma personagem cuja presença continua atravessando a vida dos demais, esse branco passa a representar um espaço de silêncio: “É justamente sobre esse branco que as cores aparecem. Não para negar a dor, mas para afirmar a continuidade da vida. Elas representam o amor que insiste em permanecer vivo, os vínculos que sobrevivem ao tempo e a esperança que resiste mesmo diante da ausência”.
Uma criação coletiva
Embora assine a direção artística da novela, André faz questão de destacar que essa construção visual nasce do diálogo constante com sua equipe: “Essa construção só existe porque é resultado de um trabalho profundamente coletivo”.
Ele destaca especialmente a parceria com o diretor de arte Billy Castilho: “Nossa conversa passa pela pintura, pela arquitetura, pelo cinema, pela fotografia e pelo design para que cada cenário, cada textura, cada objeto e cada composição de quadro também contem a história”.
Uma televisão popular, mas autoral
Ao concluir sua reflexão, André amplia a discussão para além de Por Você. Para ele, aproximar a televisão da realidade brasileira também passa pela construção de imagens que reflitam a diversidade do país: “Os dados mais recentes do Censo mostram que pretos e pardos formam hoje a maioria da população brasileira. Aproximar a televisão dessa realidade não é apenas uma questão estatística, mas também simbólica”.
Mais do que ampliar a representatividade, ele acredita que essa escolha permite que mais brasileiros se reconheçam como protagonistas de suas próprias histórias. No fim, toda essa pesquisa converge para a mesma ideia de televisão: “Acredito numa televisão popular que também possa ser autoral. Numa dramaturgia capaz de dialogar com o grande público sem abrir mão de pesquisa estética, pensamento visual e profundidade simbólica”.
E resume sua filosofia de direção em uma frase que sintetiza toda a construção visual de suas novelas: “Antes mesmo de um personagem falar, a imagem já contou ao espectador como aquela história deseja ser sentida”.
