Foto: Jack Oliveira
Na noite anterior à morte de sua avó, Wallace Borges estava ao lado dela, como fizera tantas outras vezes nos últimos dias. Por causa de uma trombose, ele lavava suas pernas com água quente na tentativa de estimular a circulação. Naquela noite, porém, a conversa tomou outro rumo. Ela falou sobre a vida, o tempo, as coisas que terminam e a naturalidade da morte. Pediu ao neto que, quando sua hora chegasse, celebrasse a vida que tiveram juntos.
No dia seguinte, ela morreu. Wallace guardou aquela conversa, mas também um luto que demoraria a encontrar espaço para existir. Anos depois, parte dessa ausência chegaria ao teatro em Fubá – Uma Receita Para o Tempo, espetáculo que dirige e que transforma um café da tarde, um bolo aparentemente incompleto e as lembranças de diferentes avós em uma história sobre aquilo que permanece quando alguém parte: “Fiquei com isso, com esse luto entalado no peito. Lembrar dela doía no peito e na alma. Eu não me permitia viver o luto”, conta Wallace ao Pittaplay.
Quando a saudade deixa de ser apenas ausência
Em Fubá, uma avó prepara os netos para um café da tarde ou para sua partida. Enquanto procuram aquilo que parece faltar na receita do bolo, eles atravessam lembranças da infância e percebem que o tempo também exige coragem para crescer.
A morte estava presente desde a concepção, mas o processo fez Wallace perceber que uma partida pode assumir diferentes significados. Pode partir a avó, podem partir os netos, pode terminar uma fase da vida. Algumas coisas deixam de existir; outras apenas mudam de lugar e continuam presentes naquilo que deixaram: “A peça foi se ampliando para falar também sobre partidas, faltas, saudades, fins e recomeços”, explica.
Foi durante a criação que Wallace conseguiu retornar também à própria perda. A convivência com as memórias da avó abriu espaço para um luto que permanecia represado e permitiu que a lembrança deixasse de estar ligada somente à dor de sua morte: “Isso abriu espaço para sentir saudade sem culpa, sem medo, sem questionamento, sem arrependimento, mas com a lembrança dos momentos maravilhosos que vivi com ela.”
É desse processo que nasce uma das definições mais bonitas que Wallace encontra para o espetáculo: “Fubá, para mim, transforma a saudade daquilo que foi em saudade daquilo que se viveu.”
Antes de serem avós, elas também foram mulheres

A homenagem construída pelo espetáculo também exigiu que o grupo olhasse para essas mulheres além da imagem afetuosa preservada pelas famílias. Wallace reconhece que a figura da avó costuma ser colocada em um lugar quase sagrado, associado ao cuidado, à comida, à sabedoria e à proteção.
A pesquisa revelou histórias mais complexas: “Enquanto crianças, víamos o cuidado e o cozinhar como formas de amor. Hoje, também conseguimos enxergar nisso a solidão e a falta de escolhas.”
Muitas dessas mulheres viveram em uma sociedade ainda mais machista e encontraram poucas possibilidades fora do cuidado da casa e da família. O bolo preparado para os netos continua sendo uma demonstração de carinho, mas passa a carregar também a história de quem precisou renunciar a outros caminhos.
O espetáculo preserva o afeto sem transformar essas avós em figuras perfeitas. Wallace conta que o grupo encontrou erros, dores e contradições durante a pesquisa. Simbolicamente, eles as retiraram do pedestal para conhecê-las como mulheres e depois as colocaram novamente naquele lugar, agora conscientes de sua humanidade.
Esse olhar também leva a outra pergunta deixada pela montagem: se herdamos dessas mulheres a capacidade de resistir, carregamos junto parte das dores que fizeram essa resistência necessária. O que cada geração fará com essa herança passa a ser uma questão para quem permanece.
O diretor também precisou aprender a escutar
A intimidade das histórias levadas para a sala de ensaio modificou o próprio Wallace. Ele conta que iniciou o trabalho com boa parte da encenação organizada em sua cabeça e carregava uma formação na qual a direção ocupava um espaço de autoridade.
Só que cada integrante chegava com sua avó, suas lembranças e uma maneira particular de desejar colocá-las em cena. Wallace admite que sua resistência em abrir mão de determinadas ideias criou conflitos e afetou a confiança do primeiro elenco. A situação cresceu até resultar em uma ruptura significativa depois da estreia: “Não tinha a confiança do elenco e sentia que eles não confiavam em mim. Muitas vezes, nem eu confiava em mim.”
A experiência fez o diretor recalcular a maneira como conduzia a criação. Com uma nova formação do elenco, Wallace conseguiu estabelecer outra relação de escuta. O argumento e o texto permaneceram, mas o jogo entre os atores e a maturidade do trabalho se transformaram.
A fragilidade, então, entrou no processo também como aprendizado de direção. Wallace descobriu que conduzir uma criação coletiva construída sobre lembranças tão pessoais exigia confiança suficiente para permitir que outras pessoas interferissem no caminho.
Uma lembrança passa a pertencer a todos

Se Fubá nasceu de histórias particulares, foi diante da plateia que o grupo percebeu como elas poderiam alcançar pessoas que nunca conheceram aquelas avós: “No momento em que ela é compartilhada”, responde Wallace ao ser questionado sobre quando uma memória individual se torna coletiva. É aquele instante em que alguém escuta uma lembrança e imediatamente reconhece alguma coisa de si: “Nossa, comigo também.”
Cada espectador chega ao teatro carregando seu próprio imaginário. Alguns tiveram avós presentes, outros gostariam de ter convivido mais com elas. Existem ainda relações difíceis e afetos que poderiam ter sido diferentes. O espetáculo deixa espaços para que essas experiências também encontrem lugar na história.
O bolo de fubá que começa a ser preparado em cena acaba reunindo muito mais do que ingredientes. Nele estão mulheres que cuidaram, pessoas que partiram, netos que cresceram e lembranças que mudaram de significado com o passar dos anos.
Wallace continua encontrando novos sentidos na obra cada vez que retorna a ela. A saudade permanece, mas já não ocupa o mesmo lugar daquela noite em que ouviu da avó que a vida deveria ser celebrada.
Em Fubá – Uma Receita Para o Tempo, aprender a se despedir também significa descobrir que uma partida não leva tudo embora. Algumas pessoas continuam conosco no cuidado que repetimos, nas histórias que contamos e até naquela receita cujo sabor basta para fazer o tempo voltar por alguns instantes.
Quem estaria sentado à mesa?
Se Fubá – Uma Receita Para o Tempo transforma o café da tarde em espaço de encontro entre lembrança e ausência, o Pittaplay propôs ao elenco que levasse essa experiência para a própria história. A pergunta foi a mesma para todos: se pudessem preparar aquele café para alguém, quem estaria sentado à mesa e o que ainda gostariam de dizer?
Aurora Dias, A Que Lembra/Avó, escolheria a avó Alice, com quem passou parte das férias durante a infância no interior da Bahia. Entre bolo de fubá, doces e demonstrações simples de carinho, existe uma herança que Aurora só conseguiria dimensionar depois. Alice economizava parte do dinheiro da feira para pagar aulas de piano para uma das filhas. A música acabou encontrando outra filha e atravessou gerações até chegar a Aurora e, hoje, ao filho dela:
“Eu diria pra ela: obrigada. Você talvez nem imaginasse, mas aquele dinheirinho que você guardava mudou a história da nossa família.”
Henrique Sanchez, O Que Acredita, pensa na avó, a quem chamava de mãe Divina, mas reconhece que essa partilha já acontece a cada apresentação. Por isso, levaria à mesa o pai, que morreu aos 40 anos, quando Henrique tinha 14. Agora, aproximando-se da idade que o pai tinha quando partiu, ele gostaria de contar sobre as conquistas, as dificuldades e o caminho que percorreu. Sua mãe também estaria nesse encontro.
“Esta partilha então seria não para evidenciar a falta, a ausência, mas para celebrar o que fica, o que precisa ser dito, agradecido, um instante para partilhar memórias, como tenho feito ao longo da minha trajetória artística.”
Katia Bocalon, A Que Enfrenta, prepararia o café para a tia Luiza, irmã mais nova de sua avó paterna e responsável por cuidar de diferentes gerações da família. A lembrança carinhosa, porém, vem acompanhada de uma pergunta que dialoga diretamente com o olhar de Fubá para mulheres que dedicaram suas vidas ao cuidado dos outros.
“Ela abriu mão de uma parte da própria história para estar presente na vida de tantas pessoas e distribuir amor. E eu não romantizo isso, muitas vezes me pergunto se ela teve a oportunidade de viver a vida que realmente desejava, de fazer suas próprias escolhas e de ser feliz.”
Lucas Becerra, O Que Pergunta, escolhe alguém que continua presente: ele mesmo. Em meio à velocidade da vida cotidiana, gostaria de sentar diante de si, olhar nos próprios olhos e oferecer o mesmo cuidado que tantas vezes direcionamos aos outros.
“Eu me convidaria pra me ver de fora, olhar no fundo dos meus olhos e me abraçar. Neste mundo tão caótico e acelerado, a gente tem esquecido de se olhar com afeto e carinho.”
Marianna Ferrari, A Que Ama, convidaria a bisavó Tosca. O encontro serviria para contar que aquilo que ela construiu continuou existindo depois de sua partida e que suas receitas conseguiram sobreviver ao tempo e até aos desentendimentos familiares.
“Agradeceria pelo tanto de amor que ela plantou nas pessoas ao seu redor e contaria a ela que chegou até mim. Que suas receitas sobreviveram às gerações e desentendimentos familiares.”
Wesley Leal, O Que Comunica, prepararia um “cafezão com bolo” para a mãe, que morreu antes de conseguir vê-lo no teatro. Ele contaria sobre os estudos, as apresentações, as histórias dos bastidores e o brilho nos olhos de quem descobre o palco pela primeira vez. Seria também a oportunidade de reconhecer diante dela que sua relação com a arte começou muito antes de sua formação. A mãe imitava vozes e personagens e transformava objetos da casa enquanto realizava os afazeres. Hoje, Wesley reconhece nessas lembranças uma origem para aquilo que levou posteriormente ao palco.
“Contaria as desventuras dos bastidores, o brilho no olhar daqueles que vêem teatro pela primeira vez e faria uma ceninha pra ela, que não chegou a ir ao teatro mas que era a dramatização em pessoa. Contaria que foi daí que herdei a veia artística. Repetiria mais um café e agradeceria o afeto que depositou na minha criação mesmo em meio ao caos.”
As respostas mudam os convidados, os afetos e aquilo que ficou por dizer, mas todas acabam voltando ao mesmo lugar que Fubá procura alcançar. A mesa preparada pelo espetáculo comporta quem partiu, quem permanece e até quem ainda precisa aprender a cuidar de si. Ao redor dela, a ausência deixa de significar apenas aquilo que perdemos e passa a revelar tudo o que essas pessoas conseguiram deixar em nós.
Jornalista, produtor audiovisual, crítico de TV, cinema e literatura e autor de seis livros. Apaixonado por novelas desde a infância, dedica-se há mais de uma década a analisar narrativas, personagens e atuações. É fundador do Pittaplay.
