Júlio Fischer revela como A Nobreza do Amor constrói personagens que evoluem ao longo da trama

Júlio Fischer comenta os bastidores da criação de A Nobreza do Amor em entrevista exclusiva ao Pittaplay. Foto: Globo/Fabio Rocha.

Foto: Globo/Fabio Rocha.

A série de entrevistas exclusivas do Pittaplay com os autores de A Nobreza do Amor continua. Depois de Duca Rachid comentar os próximos caminhos da trama, agora é a vez de Júlio Fischer abrir os bastidores da construção da novela das seis da Globo. Em conversa com o Pittaplay, o autor fala sobre o romance entre Ana Maria e Manoel, antecipa importante mudança na trajetória de Maria Helena, detalha o processo criativo ao lado de Duca Rachid e Elísio Lopes Jr. e explica por que acredita que um grande vilão precisa ir muito além da maldade.

Para Júlio, a relação entre Ana Maria e Manoel nunca foi pensada apenas como uma história de amor. O foco está no amadurecimento de dois jovens que ainda estão descobrindo quem são e que encontram um no outro parte desse processo: “São personagens que estão descobrindo si mesmos, se construindo ao longo da trama, e esse é diferencial importante no nosso mapa de personagens. Ambos muito jovens, eles vivem processo de autodescoberta pessoal no qual cada um desse par vai contribuir, de alguma forma para que o outro amadureça e esteja apto a viver uma história de amor. Talvez juntos, mas não necessariamente”.

O autor também adianta que Maria Helena também vai enfrentar mudanças Sem revelar detalhes da trama, Júlio conta que a personagem encontrará forças para enfrentar Fortunato e romper com a opressão que marca sua relação: “O que posso adiantar é que Maria Helena não vai ficar submetida à opressão do marido por muito tempo porque logo vai surgir oportunidade para ela dar o seu ‘grito do Ipiranga’. Fortunato não perde por esperar!”

Júlio também explicou como funciona o processo de criação de A Nobreza do Amor. Segundo ele, todas as decisões narrativas são construídas coletivamente pelos três autores antes de chegarem aos colaboradores responsáveis pelos diálogos: “Nosso processo de trabalho é o seguinte: reunimos diariamente desde a manhã até o fim da tarde e vamos construindo juntos as escaletas, resumos detalhados de cada capítulo, cena a cena, que depois enviamos para a equipe de colaboradores que escreve os diálogos”.

Ou seja, tudo o que vai ao ar em A Nobreza do Amor é debatido detalhadamente pelos três autores ainda na fase de criação da escaleta. Cada cena, arco de personagem, intenção dramática e detalhe da narrativa passa por esse processo coletivo antes de seguir para a equipe de colaboradores responsável pelos diálogos.

“Num momento seguinte, o capítulo é montado com as cenas escritas pelos colaboradores e vai passando de mão em mão, primeiro Elísio, depois eu e, por fim, Duca, para fazermos a redação final. Em seguida, o capítulo passa pelo crivo de toda equipe, os colaboradores Dora Castelar, Alessandro Marson, Duba Elia e Dione Carlos, mais nosso pesquisador Leandro Esteves e nosso assistente de roteiro Dimas Novais, que apontam eventuais erros (que podem ser de digitação, gramática ou mesmo eventuais inconsistências). Corrigidos esses erros, o capítulo finalmente está pronto para ser entregue à direção e à produção da novela.”

Duca Rachid, Júlio Fischer e Elísio Lopes Jr. assinam o roteiro de A Nobreza do Amor e conduzem, em conjunto, a construção da novela das seis da Globo. Foto: Globo/Fábio Rocha.
Duca Rachid, Júlio Fischer e Elísio Lopes Jr. assinam o roteiro de A Nobreza do Amor e conduzem, em conjunto, a construção da novela das seis da Globo. Foto: Globo/Fabio Rocha.

Entre os personagens que mais conquistaram o público estão Mirinho e Virgínia. Para Júlio, a dupla sempre foi concebida para representar a irreverência e a modernidade da década de 1920, e a escolha de Nicolas Prattes e Theresa Fonseca potencializou ainda mais essa proposta: “Os dois personagens foram construídos com a ideia de vilanizarem, é claro, mas também para encarnarem a efervescência, o glamour e aquela modernidade transgressora da década de 1920. Ou seja, eles foram pensados para movimentar a trama no sentido da vilania, mas também para trazer para a novela aquele charme delicioso desses ‘anos loucos’ da era do jazz, dos almofadinhas e das melindrosas”.

Ainda sobre a dupla de vilões, o autor revela que foi pensando nesses aspectos que  Nicolas Prattes e a Theresa Fonseca foram convidados para viver o casal: “Escolha feita a dedo pelos autores e a direção, mas cujo resultado superou absurdamente as nossas expectativas, que já eram altas, pela dose extra de charme e personalidade que a Theresa e o Nicolas vêm emprestando à Virgínia e ao Mirinho e os fazendo irresistíveis”.

Encerrando a conversa, o autor refletiu sobre aquilo que diferencia um vilão memorável de um personagem simplesmente mau. Para ele, o segredo está na humanidade dessas figuras e, principalmente, na interpretação de grandes atores: “Qualquer vilão para ser eficiente tem que fazer sentido para o espectador, isto é, ter objetivo crível, e não exercer a maldade pela maldade”.

A teoria de Julio serve, segundo ele, para todo o espectro de vilões: “Desde a bruxa da Branca de Neve ao Macbeth de Shakespeare. Agora, se esse vilão que se vale da maldade para alcançar seus objetivos vis, tiver outras facetas que não a da vilania pura e simples, se ele for capaz de revelar algum traço com que nós, espectadores, podemos nos identificar, alguma fraqueza, um desejo se ser valorizado, uma grande frustração ou mágoa do passado, por exemplo, ele será capaz de nos engajar ainda mais na história”.

Por fim, Júlio Fischer refletiu sobre aquilo que, em sua visão, transforma um vilão em um personagem inesquecível. Para o autor, criar motivações, conflitos e camadas humanas é essencial, mas isso, por si só, não basta. A interpretação é o elemento decisivo para eternizar um antagonista na memória do público: “São talentos excepcionais como Adriana Esteves, Joana Fomm e nosso Lázaro Ramos, para citar apenas alguns, que têm o dom de tornar memoráveis os vilões que eles encarnam”. 

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