Fotos: Laura Campanella
“Eu fui procurar humanizar ele para deixar ele mais assustador.” A escolha de Thiago Voltolini para construir Michel ajuda a compreender uma das questões mais incômodas de Precisamos Falar, filme que estreia nos cinemas nesta quinta-feira, 24 de setembro. Diante de um jovem capaz de cometer um crime brutal, seria confortável procurar explicação que o colocasse distante da realidade, mas o ator preferiu seguir pelo caminho oposto.
Ao lado de Cauê Campos e Guilherme Cabral, Thiago integra o núcleo jovem da história. Seus personagens estão diretamente envolvidos no acontecimento que coloca duas famílias diante de uma decisão moral, mas o filme também investiga aquilo que existia antes do crime. Valores transmitidos dentro de casa, racismo, desejo de pertencimento, omissão e discursos de ódio ajudam a revelar quem são esses jovens e como cada um reage quando as consequências de seus atos já não podem ser ignoradas.
Em entrevista ao Pittaplay, os três atores encontraram justamente na relação entre pais e filhos uma das chaves para compreender a história. Guilherme identifica Rick como reflexo direto da família em que cresceu. O personagem tenta ocupar posição de mediação dentro do grupo, mas reproduz também a passividade que observa no pai.
“Você vai ter o irmão comentando sobre o racismo que sofre do primo e o Rick sendo esse cara: ‘não é tão sério assim esse problema, tem coisas piores acontecendo’. Então essa passividade do Rick em relação ao racismo que o primo comete com o irmão tem muito a ver com a passividade que o pai tem na situação do jantar, por exemplo, quando é dele o voto que se abstém, analisa.
Thiago amplia essa leitura ao observar que os jovens são revelados conforme o público conhece os adultos responsáveis por sua formação. Para ele, existe uma relação direta entre aquilo que os personagens reproduzem e o ambiente em que cresceram: “Os nossos personagens vão sendo apresentados conforme os personagens dos nossos pais vão sendo apresentados, vão tendo conflitos em direção a eles. Então, acho que isso é muito interessante, ver que de fato somos frutos desse meio, dessa bolha, desses dizeres, dessa raiva e como isso afeta a criação de um ser humano”, afirma. O ator também inclui as redes sociais nessa engrenagem e chama atenção para a facilidade com que discursos violentos encontram espaços para circular.
Humanizar Michel tornou o personagem mais assustador
Michel é apresentado ao espectador a partir da violência que pratica. Conforme a narrativa avança, porém, o filme permite conhecer a estrutura familiar e social ao redor daquele jovem. Para Thiago, encontrar uma lógica para o personagem exigiu cuidado para que a construção não se transformasse em justificativa.
Sua primeira hipótese foi procurar respostas na psicopatia. O ator chegou a ler Mentes Perigosas, de Ana Beatriz Barbosa Silva, durante a preparação, até perceber que essa explicação reduziria uma discussão importante proposta pelo roteiro: “Entendi que isso era muito fácil. Era muito fácil defender ele nesse lugar, era muito fácil dizer que ele nasceu assim e estava totalmente inocentando essa criação, a responsabilidade da criação, do meio que ele vivia”, explica.
A mudança de perspectiva definiu seu trabalho: “Fui entendendo que ele não é um psicopata, mas um menino que existe, que está na rua. Então fui procurar humanizar ele para deixá-lo mais assustador. Para ver que é um caso mais próximo do que a gente tem.”
A humanidade procurada por Thiago não ameniza Michel. Ela retira do público a segurança de enxergá-lo como uma figura excepcional, completamente distante das pessoas encontradas no cotidiano. O personagem se torna mais perturbador porque sua violência encontra respaldo em comportamentos, discursos e ambientes reconhecíveis.
As redes sociais acrescentam outra dimensão a esse processo. Quando Jefferson encontra vídeos armazenados no computador de Rick, percebe que o crime não surgiu isoladamente. Existe conteúdo sendo produzido, consumido e compartilhado em torno daquela violência: “Aquilo não é um caso à parte, é algo que continua e é alimentado dentro da internet”, destaca Thiago. Para ele, a descoberta amplia o caráter assustador da história porque aponta também para as pessoas que permanecem escondidas do outro lado da tela.
Jefferson decide se levantar da mesa
Se Michel encontra maneiras de alimentar a violência e Rick passa parte da história dividido entre o peso do crime e sua ligação com o primo, Jefferson chega ao limite da tolerância.
Cauê Campos associa a reação do personagem a uma ideia que atravessa Precisamos Falar: permanecer à mesa também representa uma escolha. Jefferson passou anos convivendo com o racismo dentro da própria família e vendo comportamentos de Michel serem relativizados. Diante do crime, decide romper essa dinâmica.
“A partir do momento em que você está sentado numa mesa com a pessoa e você não se levanta após esse comportamento criminoso dela, você está compactuando com ela. Então o Jefferson se levanta, ele põe o Michel para que o Michel vá até a delegacia e confesse o que fez, muito pelo cansaço de já ter vivido isso ao longo da vida”, explica Cauê.
O ator encontra nesse cansaço uma parte importante da construção. Jefferson cresceu ouvindo justificativas para atitudes do primo e precisou aprender a se impor dentro de um espaço no qual, segundo Cauê, nunca conseguiu se sentir completamente acolhido: “Chega um momento onde você também aprende a se impor, onde você aprende também a pôr contra a parede e dizer: ‘Olha só, você vai fazer isso aqui sim, porque isso que você está fazendo é errado e você precisa pagar pelas suas atitudes’.”
Para Cauê, a reação nasce também da percepção de que a impunidade permitiu que comportamentos anteriores avançassem. O que antes atingia Jefferson diretamente alcança outra dimensão quando Michel tira a vida de uma pessoa: “Ele vai tirar a vida de uma pessoa e a gente vai seguir dessa forma? A gente vai passar pano e dizer: ‘Olha, ele é só um garoto’? Não. Ele é um criminoso e precisa responder pelos atos”, afirma.
A preocupação cresce quando Jefferson percebe que a violência pode continuar se espalhando. Para o personagem, interromper Michel deixa de ser apenas uma resposta ao que aconteceu e passa a representar uma tentativa de impedir aquilo que ainda pode acontecer: “Se eu não parar isso agora, a gente não sabe quais rumos isso vai tomar”, resume Cauê.
Rick descobre o preço de pertencer
Entre Michel e Jefferson está Rick. Guilherme Cabral construiu o personagem a partir de uma necessidade bastante reconhecível na juventude: pertencer. Michel ocupa uma posição que Rick deseja alcançar. A proximidade entre os dois ultrapassa o parentesco, e a influência do primo ajuda a explicar como Rick chega ao crime e por que demora a romper com ele.
“Ele vê o Michel num lugar onde quer estar. Então ele quer pertencer a uma bolha que o Michel é o dono. A partir desse crime que acontece, ele é impulsionado por essa influência, dessa inconsequência desse primo que quer ser amigo muito próximo e quer fazer parte”, explica Guilherme.
A consequência do ato começa, porém, a desorganizar essa relação. Guilherme identifica em Rick um impacto que Michel não demonstra da mesma maneira. O personagem conhece a verdade, sente o peso dela e, ao mesmo tempo, permanece ligado ao primo que considera praticamente um irmão: “Durante o filme, o Rick carrega com ele a verdade do que aconteceu, só que, diferentemente do primo, o Rick é um menino mais instável psicologicamente. É um menino que vai sentir muito mais o baque do ato que ele cometeu”, conta.
A trajetória chega à ruptura quando Rick finalmente assume uma posição: “Na cena final, acho que é onde, de fato, o Rick toma iniciativa, coragem e assume um lado.”
Compreender de onde vem a violência não significa absolvê-la
Ao investigar famílias, criação, preconceitos e influência social, Precisamos Falar procura as condições que permitiram à violência crescer. A existência dessas condições, porém, não apaga a responsabilidade de quem decidiu agir.
Questionado pelo Pittaplay sobre uma possível redenção para Michel, Thiago retorna ao ponto que orientou toda a construção do personagem. Compreender de onde ele veio é diferente de encontrar uma desculpa para aquilo que fez: “Construí o personagem muito no pensamento que ele não se arrepende do que fez. Ele se arrepende de ter sido pego, de não ter planejado melhor, de ter deixado isso vazar”, afirma.
Thiago ainda considera possível que Michel compreenda a gravidade de seus atos e deixe de repeti-los, mas coloca a responsabilização como parte indispensável desse processo: “Acho que tem que aprender, tem que ser punido”, diz.
É nessa diferença entre explicar e absolver que a conversa com os três atores encontra sua questão mais incômoda. Michel, Rick e Jefferson respondem de maneiras distintas à violência porque também foram formados de maneiras diferentes dentro da mesma estrutura familiar. Um encontra respaldo, outro procura pertencimento e o terceiro chega ao limite de continuar aceitando.
Precisamos Falar é dirigido por Pedro Waddington e Rebeca Diniz e produzido pela Conspiração, em coprodução com a Globo Filmes e distribuição da Sony Pictures e Conspiração. Com mais de 50 longas no currículo, a Conspiração esteve recentemente na coprodução de Ainda Estou Aqui, vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional. A Globo Filmes, por sua vez, acumula mais de 560 títulos lançados em mais de 25 anos de atuação no cinema brasileiro. O longa é protagonizado por Marjorie Estiano, Alexandre Nero, Hermila Guedes e Emílio de Mello, com Thiago Voltolini, Cauê Campos, Guilherme Cabral e Julia Svacinna completando o elenco.
Quando os filhos finalmente expõem aquilo que aprenderam, reproduziram ou decidiram enfrentar, Precisamos Falar obriga os adultos ao redor da mesa a encarar uma pergunta ainda maior: quanto daquilo que agora os assusta também foi construído dentro de casa?
Jornalista, produtor audiovisual, crítico de TV, cinema e literatura e autor de seis livros. Apaixonado por novelas desde a infância, dedica-se há mais de uma década a analisar narrativas, personagens e atuações. É fundador do Pittaplay.
