Geoffrey Russell deixou a mentira aparecer nos detalhes de Mark em Vermelho Sangue

Geoffrey Russell fala ao Pittaplay sobre Mark em Vermelho Sangue, a construção das mentiras do cientista, cenas de ação e sua carreira no Brasil.

Foto: Olivier Spencer

Quando Mark se aproxima de Carol em Vermelho Sangue, existe uma promessa capaz de conquistar rapidamente sua confiança: o cientista pode ajudá-la na busca pela cura do gene de lobisomem. A revelação de sua aliança com Otto (Rodrigo Lombardi) e a VPTech muda a leitura dessa aproximação e também permite retornar às primeiras cenas procurando os sinais de que aquele homem controlava cuidadosamente aquilo que mostrava.

Geoffrey Russell sabia que precisava sustentar essa ambiguidade. Em entrevista ao Pittaplay, o ator conta que encontrou na própria mentira o caminho para construir Mark e decidiu deixar pequenas pistas no comportamento do personagem. Um sorriso maior do que deveria, a voz ligeiramente elevada, uma reação de raiva mais intensa e olhos atentos demais ao redor passaram a compor alguém preocupado em administrar a imagem que apresentava aos outros: “Tentei deixar tudo um pouco mais elevado ou exagerado do que o normal. Dar um sorriso um pouco exagerado, falar um pouco mais alto, reagir com mais raiva, olhar demais ao redor, coisas que a gente faz quando está mentindo”, explica.

A escolha provoca uma inversão interessante no processo do ator. Geoffrey procura trabalhar de maneira instintiva, evitando racionalizar cada movimento durante uma cena. Com Mark, porém, a mentira permitiu que essa autoconsciência fizesse parte da interpretação. Se o personagem calcula o que mostra, o ator também poderia deixar esse cálculo aparecer discretamente: “Quando estou interpretando alguém que está mentindo, é tranquilo voltar para a minha cabeça e pensar em cada movimento que estou fazendo, para parecer algo meio autoconsciente.”

Nas cenas com Carol, o cuidado também estava nas reações. Geoffrey buscou expressões evasivas que permitissem a Mark escapar sem entregar completamente o jogo: “Não eram exatamente mentiras, mas também não eram verdades absolutas.”

A ciência precisava soar como conversa

A segurança de Mark como cientista também ajuda a sustentar sua credibilidade. Para encontrar o tom desses diálogos, Geoffrey buscou como referência Brian Cox, físico britânico conhecido pelo trabalho de divulgação científica. O interesse estava principalmente na naturalidade com que ele consegue falar sobre assuntos complexos: “Em vez de pensar ‘agora vem a parte científica!’, eu tentei passar uma sensação de normalidade do dia a dia para deixar tudo com cara de conversa”, conta.

A decisão ganha importância nas cenas com Otto. Como os dois personagens dominam aquele universo, Geoffrey percebeu que o diálogo precisava preservar um nível profissional de vocabulário e jargões, sem transformar a conversa entre cientistas em uma explicação artificialmente simplificada para quem está assistindo.

A contracena com Rodrigo Lombardi, portanto, ajuda Mark a ocupar aquele ambiente com naturalidade. Ele conhece a ciência sobre a qual fala, e essa segurança também fortalece a aparência de confiabilidade necessária para esconder seus interesses.

“É sobre interpretar uma necessidade humana extrema”

A ciência de Vermelho Sangue convive com vampiros, lobisomens, imortalidade e manipulação genética, mas Geoffrey encontra o ponto de contato entre esses elementos no comportamento humano. Fã de terror e fantasia, o ator vê no sobrenatural uma possibilidade de ampliar medos e desejos que já existem fora dele: “O que torna Vermelho Sangue tão especial é como ela usa o sobrenatural não só para dar sustos, mas como uma lente de aumento para a fragilidade e os desejos humanos.”

Essa compreensão também interfere na maneira como ele se aproxima da atuação. Vampirismo e manipulação genética ganham sentido quando o intérprete procura a necessidade que existe por trás da fantasia: “Interpretar um personagem encarando o vampirismo ou a manipulação genética não é bem sobre fazer um monstro, é sobre interpretar uma necessidade humana extrema.”

Geoffrey cita o medo de envelhecer, a consciência da mortalidade e os limites éticos que alguém aceita ultrapassar para proteger a si mesmo ou aqueles que ama. A fantasia leva essas questões até consequências impossíveis no cotidiano, mas preserva sentimentos reconhecíveis para quem acompanha a história.

Uma luta precisa parecer perigosa sem colocar os atores em perigo

A segunda temporada também exigiu outro recurso de Geoffrey. Em uma sequência de luta com Milhem Cortaz, sua experiência anterior com karatê, expressão corporal e combate cênico ajudou na execução dos movimentos, embora o ator ressalte que a segurança depende principalmente do trabalho dos profissionais responsáveis pela coreografia: “Eles coreografam tudo nos mínimos detalhes para evitar lesões”, explica.

Um dublê assumiu as partes mais pesadas da sequência, enquanto Geoffrey realizou o início e o encerramento da ação. O processo também dependia da comunicação entre os atores. Segundo ele, Milhem se preocupava em verificar se o colega estava confortável tanto com os movimentos planejados quanto com a força empregada durante a execução: “O principal nesse tipo de cena é se sentir seguro, e eu realmente me senti muito bem cuidado por todo mundo.”

O relato mostra uma engrenagem que funciona quando o perigo pertence à ficção. Consciência corporal, coreografia, dublês e confiança entre os atores permitem que a violência alcance a tela enquanto o controle permanece nos bastidores.

Geoffrey Russell procura primeiro a verdade de quem interpreta

Esse princípio também aparece em outro trabalho recente do ator. Em The Fox Sisters, Geoffrey interpreta Elias Capron, figura histórica ligada ao início do movimento espírita. Para construir o personagem, preferiu compreender a convicção como uma verdade racional para aquele homem, em vez de partir de um julgamento sobre sua crença: “Em vez de tratá-lo como um fanático, eu o vi como um homem lúcido que realmente acreditava ter tido a sorte de trombar com algo revolucionário.”

A parceria com Nathalia Garcia, intérprete de sua esposa, ajudou a colocar essa convicção dentro de relações afetivas concretas. Para Geoffrey, a conexão entre os personagens trouxe “calidez e realidade emocional” a uma figura que poderia ser reduzida apenas às próprias crenças.

Há uma aproximação interessante entre processos tão diferentes. Mark precisa acreditar na imagem que constrói enquanto esconde parte de suas intenções; Elias precisa ser compreendido a partir da convicção que organiza sua visão de mundo. Geoffrey procura a lógica interna de cada um antes de decidir como apresentá-los ao público.

Um britânico que encontrou espaço no audiovisual brasileiro

Nascido no Reino Unido e com uma carreira construída também no Brasil, Geoffrey sabe que sua origem continuará fazendo parte dos personagens para os quais costuma ser chamado. Seu sotaque e sua aparência, segundo ele, fazem com que ainda seja reconhecido como um ator estrangeiro, característica que passou a enxergar como uma possibilidade profissional: “A realidade é que, como eu pareço e soo de forma inconfundivelmente britânica, sempre vou ser visto como um ator estrangeiro por aqui e, ao meu ver, isso me ajuda a me destacar em papéis de diferentes tipos.”

A sensação de pertencimento, entretanto, já ultrapassou essa distinção. Geoffrey encontrou na convivência com profissionais brasileiros uma integração que descreve como natural desde o começo da trajetória no país: “Adoro trabalhar com artistas brasileiros. As pessoas aqui são extraordinariamente calorosas, abertas e acolhedoras com quem vem de fora.”

Mark mantém na tela uma identidade estrangeira facilmente reconhecível, enquanto Geoffrey encontrou fora dela um ambiente artístico no qual já não se sente apenas alguém que chegou de outro lugar. A experiência internacional continua fazendo parte de sua identidade como ator, mas hoje convive com a sensação de pertencimento à indústria na qual trabalha: “Ser totalmente abraçado por uma comunidade artística tão criativa e generosa faz com que eu me sinta completamente em casa fazendo parte dela.”

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