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A primeira batalha de Madalena é contra o tempo. Grávida de oito meses, ainda atravessando o luto pela morte do pai, ela precisa colocar de pé o filme de ficção científica escrito por ele. O dinheiro é curto, os problemas se acumulam e Davi, diretor do projeto e seu ex-marido, desaparece quando as filmagens deveriam começar. Em Morte e Vida Madalena, Guto Parente transforma essa sucessão de obstáculos em comédia sem retirar deles o peso que carregam para quem precisa resolvê-los.
A escolha determina o tom do longa. O humor funciona porque os personagens levam aquele filme muito a sério. Cada dificuldade representa uma ameaça concreta ao trabalho e exige uma solução imediata, enquanto a repetição dos imprevistos cria o absurdo. Guto compreende que o set já oferece sua própria dramaturgia: pessoas com funções diferentes dependem umas das outras, decisões precisam ser tomadas rapidamente e qualquer problema pode interromper uma cadeia inteira de trabalho.
No centro desse movimento está Noá Bonoba. Madalena concentra tantas pressões que poderia facilmente ser conduzida pelo excesso, mas a atriz encontra uma medida precisa para fazer o desespero produzir humor sem transformar a personagem em piada. A impaciência, o cansaço e as explosões pertencem à situação, assim como a necessidade de continuar resolvendo o próximo problema mesmo quando o anterior ainda parece longe de uma solução.
É uma atuação que entende o ritmo proposto pela direção. Noá trabalha voz, corpo e timing para acompanhar uma mulher que praticamente não encontra espaço para processar aquilo que está vivendo. Madalena está prestes a dar à luz enquanto tenta realizar o último roteiro deixado pelo pai. Morte e nascimento ocupam simultaneamente sua vida, mas o filme evita interromper a ação para explicar essa relação. Ela existe na própria urgência da protagonista: terminar aquela obra também significa manter alguma coisa do pai em movimento.
Noá sustenta o longa porque oferece unidade a esse caos. Quando Morte e Vida Madalena ameaça se dispersar entre tantos personagens, problemas e pequenas crises, é a necessidade da protagonista de fazer o filme acontecer que reorganiza a narrativa. Seu dilema dá consequência à comédia.
Isso não transforma o elenco ao redor em mero apoio. Pelo contrário, uma das qualidades do filme está na maneira como os personagens secundários conquistam presença própria sem retirar Madalena do centro. Cada profissional chega ao set carregando uma necessidade, uma opinião sobre o projeto e um limite diferente para aquilo que está disposto a suportar. O resultado é um conjunto em que as figuras ao redor da protagonista ajudam a alimentar o caos e, ao mesmo tempo, dão ao filme a dimensão coletiva que sua história exige.
Essa construção também impede que a precariedade seja tratada apenas como uma sucessão de gags. Por trás de cada problema existe uma equipe tentando trabalhar. A graça nasce da improvisação necessária para manter uma produção viva quando quase tudo parece conspirar contra ela.
Guto Parente encontra aí sua melhor matéria. A direção sabe alternar tensão e alívio e permite que a comédia apareça da seriedade com que cada personagem encara situações progressivamente absurdas. Fazer cinema torna-se um exercício permanente de adaptação: falta alguma coisa, alguém desaparece, surge outro problema e a resposta possível precisa ser inventada naquele instante.
Há uma declaração de amor ao ofício nessa insistência, mas ela vem acompanhada do desgaste provocado por ele. O filme conhece a beleza de criar coletivamente e também conhece o cansaço, a precariedade e a incerteza que acompanham esse processo. Seu afeto pelo cinema ganha força porque não precisa esconder suas dificuldades para celebrá-lo.
Morte e Vida Madalena é bem construído porque faz forma, personagem e tema caminharem na mesma direção. Noá Bonoba oferece uma protagonista carismática e tecnicamente segura, enquanto o elenco encontra espaço para transformar o set numa comunidade de personagens fortes. Guto Parente olha para tudo aquilo que pode dar errado durante a realização de um filme e encontra uma pergunta muito simples por baixo do caos: por que continuar?
Madalena responde fazendo. Entre a morte que ainda precisa assimilar e a vida que está prestes a nascer, ela insiste em colocar outro projeto no mundo e é nessa insistência que o filme encontra sua graça, seu afeto e sua razão de existir.
Jornalista, produtor audiovisual, crítico de TV, cinema e literatura e autor de seis livros. Apaixonado por novelas desde a infância, dedica-se há mais de uma década a analisar narrativas, personagens e atuações. É fundador do Pittaplay.
