Mariana Sena vive um dos núcleos mais delicados de Quem Ama Cuida. Na novela das nove da Globo, a atriz interpreta Elenice, mulher presa em relação abusiva com Tom, personagem de Allan Souza Lima. O que chama atenção na trama é a forma como a violência não aparece apenas no grito ou na explosão, mas no cuidado distorcido, no controle silencioso e no afeto usado como ferramenta de manipulação.
Em entrevista ao Pittaplay, Mariana revelou que a personagem toca em lugares muito pessoais de sua própria história: “Elenice é muito importante pra mim porque ela toca num lugar muito sensível meu. Eu já vivi violências sutis, violência moral, abuso psicológico, violência patrimonial… então quero representá-la da forma o mais próximo do real possível.”
Desde o início, a atriz entendeu que Elenice precisava ser construída mais pelos silêncios do que por reações explícitas: “Desde a preparação, conversando com o Allan, sempre tivemos a ideia da importância de mostrar de maneira real essas relações, que não acontecem no grito, de maneira grosseira, principalmente no início do relacionamento. A violência vai sendo apontada aos poucos.”
Para Mariana, o abuso vivido por Elenice passa por um processo de apagamento: “Esse tipo de relação vai te silenciando, desapropriando de si. A pessoa vai se esvaziando de seus interesses e de suas ambições. Você não sabe mais o que gosta, já que seus interesses são filtrados pelo parceiro. Desde a forma como você se veste, se comporta, o que diz e até o que acredita sobre si mesmo. É como uma rede que você não tem por onde escapar.”
Uma mulher tentando impedir que a bomba exploda

Construir emocionalmente Elenice tem sido, segundo Mariana, processo sufocante: “Ela evita o conflito a todo momento e parece que está sempre com uma bomba-relógio na mão tentando desmontar os fiozinhos para que não exploda. Tanto do marido quanto de qualquer pessoa que tenta salvá-la desta relação.”
Na novela, a mãe Rosa, vivida por Tatiana Tibúrcio, e a amiga Adriana, interpretada por Letícia Colin, tentam alertar Elenice. Mas a personagem ainda não consegue enxergar o ciclo em que está presa: “Ela acredita que as pessoas vêm para gerar conflito, mas na verdade querem salvá-la.”
A maternidade também se tornou camada importante na construção da personagem: “Ela é uma mãe super dedicada, protetora e não quer que a filha seja no futuro o que ela tem sido. Sinto que parte da minha construção tem sido pensada muito como mãe.”
Elenice é a primeira personagem mãe de Mariana após a maternidade na vida real: “Isso tem sido também outra cobrança, no sentido de como construir essa relação com a Dafne de maneira que eu consiga transmitir que é uma mãe zelosa ao mesmo tempo que é vulnerável.”
O ciclo do abuso e a parceria com Allan Souza Lima

Para Mariana, a novela acerta ao mostrar que a violência psicológica muitas vezes vem acompanhada de carinho, promessas e momentos de aparente cuidado: “Relacionamento tóxico, abusivo, não é 100% do tempo violento. Muito pelo contrário. O conflito começa, a discussão acontece, a violência se instaura e depois vêm as promessas, desculpas e o famoso love bombing.”
A atriz explica que esse ciclo pode durar dias, semanas ou meses, até que uma nova situação leve o agressor a repetir o comportamento violento: “Elenice não vive sem o Tom e vice-versa.”
Por isso, a parceria com Allan Souza Lima tem sido fundamental: “É a primeira vez que vivo personagem colaborativa, construindo esse processo em dupla. Trocamos informações, dados, dicas de filmes com a temática. O Allan é ator muito aberto ao diálogo e foi um ponto crucial pra gente conseguir construir essa relação em cena.”
Mariana também destaca o trabalho da direção, especialmente de Nathalia Ribas: “Temos uma troca muito boa com a direção, especialmente a Nathalia com quem tivemos mais tempo de set. É uma diretora sensível, que nos trouxe outras camadas para essa construção ao longo das gravações.”
A responsabilidade de representar tantas Elenices

Ao receber a personagem, Mariana sentiu o peso social da trama: “Quando soube que Elenice era personagem feliz e solar, mas que vivia dentro de casa um relacionamento abusivo, me senti detentora de grandes poderes. Me senti com muita responsabilidade nas mãos.”
A atriz lembra que o Brasil segue marcado por altos índices de feminicídio e que muitas violências começam em relações abusivas: “Temos muitas Elenices no Brasil e, se ao menos uma delas se reconhecer em cena, já terá valido a pena.”
Durante a preparação, Mariana buscou informações em materiais de orientação, incluindo uma cartilha da Lei Maria da Penha: “O conselho é procurar ajuda e se proteger ao máximo. Procure alguém que possa ajudar, além de um familiar. Procure a polícia, ligue no 180, que eles vão saber dar suporte e orientar da melhor maneira possível para sair dessa relação.”
Além do sofrimento

Apesar da dor que atravessa a personagem, Mariana faz questão de enxergar Elenice para além do abuso: “Vai muito além do sofrimento, ela é uma mulher bonita, mãe dedicada e penso que ela é uma pessoa que ama a vida. Ela está sempre disposta a ajudar todos à sua volta. Esses pontos a deixam mais humana e não apenas uma sofrida.”
Essa preocupação também vem da trajetória recente da atriz na televisão. Em Mar do Sertão, novela de Mário Teixeira, exibida entre 2022 e 2023, Mariana viveu Lorena, personagem marcada pela solidão e pela ausência materna. Depois, em Garota do Momento, trama de Alessandra Poggi, exibida em 2025, interpretou Glorinha, mulher ferida por trauma de abuso na infância. Agora, em Quem Ama Cuida, ela encara personagem envolvida em relação abusiva sem conseguir acreditar que aquilo que vive não é saudável.
“Fiquei honrada pela confiança de me entregarem uma personagem como a Elenice, com tantas camadas e sensibilidade. Acho muito potente a trama dela. É um prato cheio para qualquer atriz.”
Uma nova fase na carreira
A chegada de Elenice marca também a estreia de Mariana em uma novela das nove: “De Glorinha para Elenice é uma passagem muito importante pra mim. Desta vez, para Quem Ama Cuida, eu fui convidada. Meu primeiro convite para um trabalho, o que me deixou extremamente feliz e lisonjeada.”
A atriz admite que o convite também trouxe insegurança: “Fiquei em choque e com síndrome do impostor de aceitar e não dar conta da missão. Foi a primeira vez que alguém olhou pra mim e pensou que a Mariana poderia fazer aquela personagem sem precisar de testes.”
Para ela, Glorinha abriu caminho para esse novo momento: “Sinto que a Glorinha me preparou muito pra esse momento chegar. Primeira novela das nove, primeira personagem adulta, que é mãe, dona de casa. Tenho uma filha de 2 aninhos. Interpretar agora uma mãe nesse momento tão especial da minha vida é poder trazer um pouco da minha maternidade para uma personagem.”
Uma atriz em transformação

Mariana também enxerga a fase atual como um período de expansão artística. Em pouco tempo, viveu personagens muito diferentes entre si: “Tive a oportunidade de interpretar três personagens completamente diferentes. Foi um ano de ouro.”
Ela cita Glorinha, de Garota do Momento, uma sargenta no filme Antártida, dos Estúdios Globo, que ainda será lançado e uma advogada no universo do futebol na série Jogada de Risco, que estreia em julho no Globoplay.
“Ter a possibilidade de fazer esse trabalho como atriz, com papéis diversos, exercitando o ofício, é um privilégio muito grande.”
Para Mariana, essa diversidade também ajuda a quebrar estereótipos: “Todas as pessoas são múltiplas. Nem toda pessoa negra é igual. Uma preta, amarela, indígena pode interpretar todo e qualquer papel que não tenha só a descrição da etnia para definir o que ela faz ou deixa de fazer.”
A atriz afirma que seu desejo é que o público reconheça personagens completamente diferentes em cada trabalho: “É conseguir viver uma personagem e encerrar seu ciclo para recomeçar outros sem ser a atriz que faz todos os tipos do mesmo jeito.”
Mulheres que conduzem histórias
Ao olhar para as novelas que fez recentemente, Mariana percebe mudança importante na forma como personagens femininas vêm sendo escritas: “As três produções que fiz foram conduzidas por mulheres fortes. As personagens femininas criadas tinham trajetórias muito específicas e todas as histórias eram conduzidas por essas mulheres.”
Para ela, existe transformação na dramaturgia: “Fico muito feliz em estar inserida nesse contexto, de ter a oportunidade de exercer o meu trabalho numa época em que as mulheres são descritas de outra maneira, com a força de vida que elas merecem.”
A atriz destaca que mulheres podem ser fortes, sensíveis, delicadas, densas, ambiciosas e contraditórias: “Até certo tempo atrás, esse perfil de mulheres na dramaturgia eram vilãs. Mulheres que têm vontade de vingança, ambições, desejos, que dizem não, que correm por si mesmas e constroem suas histórias. Hoje não são mais retratadas como donzelas em apuros que precisam ser salvas por um príncipe encantado. Pelo contrário, a gente consegue se salvar e ainda consegue salvar os outros.”
O que mudou na Mariana atriz

Ao comparar a artista de hoje com a do início da carreira, Mariana reconhece uma mudança profunda: “A Mariana de hoje é diferente, mais madura, entende as coisas da vida com mais complexidade no sentido das relações, sensações e emoções.”
A maternidade teve papel central nessa transformação: “A maternidade me proporcionou esse amadurecimento. A maternidade nos dá muitas coisas e uma delas é a sensação de que a gente dá conta de tudo.”
A atriz também fala sobre confiança, método e maturidade profissional: “A sensibilidade, disponibilidade, intimidade com a câmera, com o set de filmagem, a agilidade para decupar texto e a maneira de estudar mudaram muito de quando eu comecei para agora.”
Hoje, seu processo criativo acontece principalmente de madrugada: “É um pouco enlouquecedor e nada saudável, mas pra mim tem funcionado.”
Ao final, Mariana olha para a própria trajetória com gratidão: “Agradeço muito a Mariana do início por ter insistido, mesmo que com medo e insegura, porque nós caminhamos muito e ainda temos muito o que caminhar.”
Em Quem Ama Cuida, Mariana Sena não apenas vive personagem atravessada por dor, silêncio e vulnerabilidade. Ela também transforma Elenice em retrato de muitas mulheres que, todos os dias, tentam sobreviver a relações que as apagam lentamente e Mariana encontra neste ponto a força da personagem, pois Elenice não é escrita apenas para sofrer, mas para ser reconhecida.
