Grazi Massafera, Fernanda Vasconcellos e Daphne Bozaski elevam o jogo das vilãs em Três Graças

Três mulheres, três forças em colisão e um mesmo combustível: o desejo de controle. Em Três Graças, Grazi Massafera, Fernanda Vasconcellos e Daphne Bozaski constroem vilãs que não cabem no rótulo do “mal pelo mal”. Elas manipulam, provocam, desestabilizam mas, acima de tudo, existem com camadas, contradições e presença narrativa. Arminda, Samira e Lucélia não pedem licença. Elas ocupam. E quando aparecem, a novela muda de tom. Fotos: Reprodução/Globoplay

Há algo de ancestral na figura da vilã. Desde Medeia, passando pelas madrastas dos contos clássicos até chegar ao folhetim televisivo, a vilania sempre foi construída a partir de uma ruptura: a quebra do afeto, da moral e do limite. Mas a vilã de novela carrega elemento a mais: ela precisa provocar reação imediata. Não basta ser má. É preciso ser magnética, imprevisível e, sobretudo, ativa dentro da narrativa. A grande vilã de folhetim não espera a história acontecer, ela cria o caos.

É exatamente isso que Aguinaldo Silva, Zé Dassilva e Virgílio Silva constroem em Três Graças: três mulheres que não orbitam a trama, mas a movem com as próprias mãos. E cada uma delas entende, à sua maneira, o que significa ser vilã.

Lucélia: a vilã movida pelo desejo e pelo caos

Lucélia cresce a cada capítulo e cresce para o caos.
Daphne Bozaski conduz essa escalada com precisão, transformando o que parecia apenas ambição em obsessão.
Ela invade, provoca, rompe limites… e domina a cena como quem sabe exatamente o estrago que pode causar. 
Foto: Reprodução/Globo.
Lucélia cresce a cada capítulo e cresce para o caos. Daphne Bozaski conduz essa escalada com precisão, transformando o que parecia apenas ambição em obsessão. Foto: Reprodução/Globo.

Daphne Bozaski transforma Lucélia em estudo de descontrole. A personagem, que começou como a órfã inconveniente interessada na herança dos tios ricos, cresce de forma assustadora até dominar capítulos inteiros. Existe inteligência dos autores em perceber o alcance da atriz e entrega de Daphne que acompanha esse crescimento sem freio. Lucélia não sente, ela deseja. E esse desejo é o motor de tudo: poder, dinheiro, controle. Ao revelar ter matado os próprios pais, a personagem rompe qualquer possibilidade de redenção e passa a operar em outro nível de frieza.

A tomada da Chacrinha, a manipulação que ela faz com Vandilson e a violência explícita mostram uma vilã que não mede consequência. Nesta reta final, a cena em que aponta uma arma para a cabeça de Maggye, a própria prima, sintetiza essa escalada. Tudo nela grita colapso e o figurino acompanha esse desmoronamento interno com precisão. Lucélia caminha, inevitavelmente, para desfecho trágico. Não há retorno possível para quem já ultrapassou todos os limites.

Samira: a frieza estratégica que assusta mais que a loucura

Fernanda Vasconcellos constrói uma personagem que oscila entre fragilidade e explosão, criando uma vilã imprevisível, daquelas que não seguem lógica, seguem impulso. Foto: Reprodução/Globo
Fernanda Vasconcellos constrói uma personagem que oscila entre fragilidade e explosão, criando uma vilã imprevisível, daquelas que não seguem lógica, seguem impulso. Foto: Reprodução/Globo

Já Fernanda Vasconcellos faz de Samira um caso à parte e talvez o maior desperdício da novela em termos de tempo de tela. Porque, mesmo com menos espaço, a atriz constrói a vilã mais perigosa da trama. Samira não é apenas fria, ela é estratégica. Está diretamente ligada ao eixo central da história ao traficar a filha de Joélly, e conduz esse arco com ambiguidade rara. Há cálculo em cada movimento, mas também existe fissura emocional que aparece em momentos-chave, como ao encarar a própria neta.

Cenas como esta, quando ela chora ao ver a criança, humaniza sem suavizar. Ao contrário: torna ainda mais inquietante. Samira é o tipo de vilã que não teme ninguém. Enfrenta figuras maiores, ameaça sem hesitar e retorna à trama disfarçada, como manda o manual do novelão clássico. Fernanda Vasconcellos amplia tudo o que recebe. Ela não apenas interpreta o arco, ela o reinventa. Fernada pega o roteiro, lê, entende e cria. E, com isso, eleva Samira a patamar de antagonista memorável.

Arminda: o carisma perigoso de quem faz o público rir

Com olhar calculado e elegância quase ameaçadora, Grazi Massafera transforma cada gesto em estratégia. É uma vilã que entende o poder do silêncio, do tempo e da manipulação sutil. Foto: Reprodução/Globo.
Com olhar calculado e elegância quase ameaçadora, Grazi Massafera transforma cada gesto em estratégia. É uma vilã que entende o poder do silêncio, do tempo e da manipulação sutil. Foto: Reprodução/Globo.

E então há Grazi Massafera como Arminda, talvez a mais complexa das três. Porque Arminda não é construída para ser odiada ou temida, ela é construída para seduzir o público. É a vilã que carrega marca muito específica do universo de Aguinaldo Silva: o humor. Arminda quer poder, quer dinheiro, e comete atrocidades para alcançar seus objetivos. Mas há nela carisma que desarma. O riso entra como elemento de aproximação, criando relação ambígua com o público. Ao mesmo tempo, sua trajetória também é de escalada.

A personagem perde o controle aos poucos, até chegar a ponto em que já não consegue mais raciocinar com clareza. E é aí que Grazi mostra domínio absoluto: transita entre o cômico, o dramático e o caótico com naturalidade. Em cenas com Josefa, revela camadas emocionais; em momentos de destempero, como ao matar Edilberto por engano, expõe o abismo em que Arminda se encontra. Não há cena pequena. Tudo ganha peso quando passa por ela.

Quando as vilãs se tornam protagonistas da própria história

O grande mérito de Três Graças está em entender que vilãs fortes não dependem dos protagonistas para existir. Lucélia, Samira e Arminda têm arcos próprios, constroem seus caminhos e arrastam a narrativa com decisões que partem exclusivamente delas. São personagens que criam conflito, sustentam tensão e entregam ao público aquilo que o folhetim tem de mais essencial: emoção em estado bruto.

E, quando três atrizes desse calibre se encontram com texto que permite risco e direção que acompanha essas nuances, o resultado é raro. Não são apenas vilãs. São forças narrativas que ajudam a explicar por que ainda nos sentamos diante da televisão esperando, ansiosamente, pelo próximo capítulo.

Marcado:

Deixe um Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *