Marina Solé Pagot escreve para existir e faz da própria vida matéria de literatura

A trajetória de Marina Solé Pagot atravessa fantasia, poesia, memória e experimentação, cinco livros que revelam uma autora em constante transformação. Foto: @isabelle.rieger

Há escritores que aprendem a escrever. Outros, simplesmente começam como se a palavra já estivesse ali, à espera de um corpo que a sustente. Com Marina Solé Pagot, essa sensação atravessa cada resposta, cada lembrança, cada frase que ainda parece em construção. Aos 12 anos, enquanto muitos ainda experimentam o mundo, ela já o recriava. E talvez seja justamente isso que sustenta sua trajetória: a escrita como um lugar de pertencimento, mas também de descoberta constante.

“Admiração”, responde ela, ao olhar para a menina que escreveu Coração de Obsidiana. E não há qualquer romantização nessa palavra. Há reconhecimento. Há coragem: “Sempre me conectei com a escrita e sempre tive muita coragem de ser inteiramente eu em tudo que escrevia”, afirma, revelando uma autora que nunca negociou sua vulnerabilidade e que, por isso mesmo, construiu obra que pulsa verdade desde o início.

Mas se o começo tem raízes, o caminho segue aberto e talvez essa seja sua maior força.

O mistério que move

A trajetória de Marina Solé Pagot atravessa fantasia, poesia, memória e experimentação — cinco livros que revelam uma autora em constante transformação. Foto: @isabelle.rieger
A trajetória de Marina Solé Pagot atravessa fantasia, poesia, memória e experimentação — cinco livros que revelam uma autora em constante transformação. Foto: @isabelle.rieger

Ao longo da conversa, há algo que Marina não tenta resolver e isso diz muito sobre sua relação com a escrita: “Acho que talvez eu nunca consiga encontrar resposta certa. Não sei se quero também”, diz com muito bom humor, ao falar sobre o que a moveu a começar. E há, nessa recusa em explicar, um gesto quase literário.

Ela mesma define esse espaço como “imaterial, transcendental”, território onde a escrita vive dentro dela sem precisar ser completamente decifrada: “Quero que existam esses espaços que podem ser descobertos ao longo dos anos, a cada nova história”, completa.

E é nesse não saber que ela se sustenta. Escrever, para Marina, não é chegar a respostas, mas continuar perguntando.

Técnica, maturidade e o direito de reescrever

Se a intuição a levou até aqui, a formação em Escrita Criativa e o mestrado em Letras trouxeram outra camada ao seu processo. Uma escrita mais consciente, mais cuidadosa, mas não menos viva.

“O que crio hoje parece que tem muito mais peso justamente porque carrego grande bagagem de repertório”, explica. Ao mesmo tempo, ela reconhece o outro lado desse amadurecimento: a autocrítica: “Às vezes, tenho que levar a autocrítica para terapia”.

A diferença, hoje, está no tempo. Na forma de lidar com ele: “Faço planejamentos, releituras e reescritas, com a certeza de que não preciso terminar tudo para ontem”, diz, contrastando com a adolescente que escrevia páginas e páginas buscando uma perfeição imediata.

E, ainda assim, há algo que permanece intacto: o desejo de que cada palavra encontre seu lugar.

Crescer junto com os personagens

Cinco livros, múltiplas vozes, uma autora em constante transformação.
Cinco livros, múltiplas vozes, uma autora em constante transformação.

A trilogia formada por Coração de Obsidiana, O Cavaleiro Branco e Reino de Memórias não é apenas o início de sua carreira, é também registro de crescimento. Não apenas dos personagens, mas da própria autora.

“Os Três Escolhidos começam a jornada com 14 anos e terminam com 18, e a ideia inicial sempre foi que crescêssemos juntos”, conta. E cresceram. Entre os 12 e os 15 anos, Marina não apenas escreveu uma história, ela se escreveu dentro dela.

“Eles me ensinaram muito sobre coragem, força e lealdade”, afirma. E talvez por isso esses personagens não fiquem no passado: “Eles sempre vão me acompanhar como os primeiros personagens que me viram inteiramente Marina”.

Há, nessa frase, algo que define sua literatura: personagens que não apenas existem, eles testemunham.

Memória, juventude e o registro do sentir

Um mergulho íntimo na adolescência: Somos Todas as Cores reúne textos que revelam angústias, afetos e a construção de si.
Um mergulho íntimo na adolescência: Somos Todas as Cores reúne textos que revelam angústias, afetos e a construção de si.

Se a trilogia fantástica marca o início de sua jornada, há outro livro que funciona quase como um espelho íntimo da autora: Somos Todas as Cores. Diferente das narrativas estruturadas, aqui Marina se permite revisitar a si mesma em estado bruto.

“Foi desafiador, porque ele não foi um livro pensado em ser livro”, conta. A obra nasce da reunião de textos escritos entre a adolescência e o início da juventude, fragmentos de uma mente em ebulição, tentando entender o mundo e a si mesma ao mesmo tempo: “Relendo hoje, tem muita angústia e um grande dramalhão, normal para adolescente, né?”, diz, com riso que suaviza, mas não apaga a intensidade daquele período.

Escrever para se encontrar

Se há um eixo que atravessa toda a obra de Marina, ele aparece com clareza quando a pergunta se volta para dentro: escrever é entender o mundo ou a si mesma?

“Tenho muita dificuldade de me conectar com o que existe dentro de mim”, admite. E é justamente aí que a escrita se torna essencial: “A escrita sempre foi capaz de atingir esses espaços”.

Mais do que observar o mundo, ela escreve para atravessá-lo: “Vejo a escrita muito mais como algo que extravasa de mim para o mundo do que do mundo para mim”, diz, revelando uma autora que transforma a literatura em extensão da própria existência.

E talvez seja por isso que seus temas retornam, mesmo quando as histórias mudam: “Luto, amor e eternidade”.

Entre gêneros, sem rótulos

Em As Ruínas da Rainha, Marina experimenta novos formatos e convida o leitor a decidir os caminhos da narrativa.
Em As Ruínas da Rainha, Marina experimenta novos formatos e convida o leitor a decidir os caminhos da narrativa.

Fantasia, poesia, conto histórico, narrativa interativa, suspense. A obra de Marina se recusa a caber em um único lugar. Em As Ruínas da Rainha, há uma proposta interativa e aventuresca e essa recusa de não se colocar como uma autora de gênero específico não é estratégica, é natural: “Não vejo como escolha, mas como algo inconsciente”, afirma. “Não gosto de me colocar em caixinhas e odeio resumir autores a gêneros”.

Para ela, a história vem antes da forma. Sempre: “Não penso numa história a partir do gênero, mas a partir do que quero transmitir. Acho que essa dinamicidade de estilos, estruturas e construções é essencial para que eu, enquanto escritora jovem, também possa explorar as diferentes formas de escrita e entender onde me saio melhor.

E é nesse movimento que sua escrita encontra liberdade para experimentar, sem perder identidade.

Humanidade como matéria-prima

Se há elemento indispensável em seu processo criativo, ele tem nome claro: “Nada move minha escrita mais do que a humanidade”, diz. E a palavra não surge como conceito abstrato, mas como prática. Observar, sentir, viver.

“Não consigo me imaginar escrevendo sem viver, sem sentir, sem me deixar mergulhar nesse turbilhão de emoções”. Ao citar Olga Tokarczuk, Marina reforça essa visão com imagem que atravessa sua própria literatura: “É a ternura que faz com que um bule de chá comece a falar”.

E, no fundo, é isso que ela faz. Dá voz ao que parece silencioso.

O reencontro como caminho

Nem sempre a escrita flui. E quando ela trava, Marina não busca atalhos, busca retorno: “Busco um reencontro comigo mesma”, afirma. Um movimento que passa por revisitar sua própria história, sua própria origem. “Me conectar à Marina de 12 anos”.

Há também, mais recentemente, presença que atravessa esse processo: “conversando com minha avó que faleceu em 2024”. A escrita, então, deixa de ser apenas criação. Torna-se também memória. E, de certa forma, permanência.

Ela se conecta com a literatura tomando café com leite como quem aquece as palavras antes de deixá-las existir

Marina Solé Pagot escreve com entrega, sensibilidade e verdade. Foto: @isabelle.rieger
Marina Solé Pagot escreve com entrega, sensibilidade e verdade. Foto: @isabelle.rieger

No meio de reflexões profundas, travessias emocionais e processos criativos que exigem entrega, Marina também encontra abrigo nos pequenos rituais. Aqueles que parecem simples, mas sustentam o gesto de escrever.

“Não sei se é o único, mas o que consigo pensar é: ouvir música e tomar café com leite”, conta. Há, nessa imagem, quase uma cena cotidiana que poderia facilmente habitar um de seus próprios livros, a escrita acontecendo entre o som que preenche o ambiente e o calor de uma xícara nas mãos.

“Sempre é mais confortável escrever com música gostosinha e café com leite quentinho, ou friozinho também, se for verão…”, completa, com a leveza de quem entende que nem toda construção literária nasce do conflito. Às vezes, nasce do conforto.

E talvez seja justamente aí que sua escrita encontra outro tipo de força: na delicadeza dos hábitos, no silêncio entre uma frase e outra, no tempo que se permite sentir, antes de transformar tudo em palavra.

Marecais: quando a escrita exige tudo

Se toda trajetória aponta para algum lugar, no caso de Marina esse lugar atende por um nome: Marecais.

Mais do que um novo livro, a obra surge como ponto de inflexão: “Marecais é uma narrativa desafiadora porque me coloca de frente com meus medos e minhas expectativas”, explica.

E há, aqui, camada ainda mais íntima. “É uma obra que busca eternizar meus avós maternos, ficcionalizando suas vidas”. 

Luto, amor e eternidade, os mesmos temas que atravessam sua obra, agora ganham rosto, história e memória: “Coloco todas as minhas fichas em Marecais”, diz. E a metáfora não é leve: “Aposto tudo nessa história. E, por isso, ela toma tudo de mim”.

No fim, talvez seja isso que define Marina Solé Pagot como autora: alguém que não escreve apenas histórias, mas se entrega inteira a cada uma delas.

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