Rosanna Viegas fala sobre o desafio de levar o universo de Clarice Lispector ao palco e comenta sucesso de Zeni em Quem Ama Cuida

Rosanna Viegas integra o elenco de Se Eu Fosse Eu – Clarices, espetáculo que transforma contos e reflexões de Clarice Lispector em uma experiência cênica marcada por memória, sensibilidade e questionamentos sobre a existência.

Fotos: @jamesclickphoto

Rosanna Viegas conquistou o público com a intensa Zeni em Quem Ama Cuida e para além da complexa personagem que infernizou a vida da mocinha Adriana na novela das 9, a atriz está diante de outro desafio, só que no teatro, onde percorre um caminho oposto: dá vida ao universo sensível, filosófico e profundamente humano de Clarice Lispector no espetáculo Se Eu Fosse Eu – Clarices, em cartaz no Centro Cultural Justiça Federal, no Rio de Janeiro.

À primeira vista, Zeni e Clarice parecem habitar mundos completamente diferentes. Mas, para Rosanna, ambos exigem o mesmo compromisso: compreender profundamente o universo que está interpretando antes de levá-lo ao palco ou às telas.

“O maior desafio é dominar o ritmo das palavras da Clarice, sentindo-as profundamente todos os dias em cena. É um aprendizado diário criar esse espaço de magnetismo e de ‘tradução’ dos seus contos”, explica a atriz ao Pittaplay.

Clarice Lispector transformava acontecimentos aparentemente banais em profundas reflexões sobre a existência. Um ovo durante o café da manhã podia despertar pensamentos sobre o mistério da vida. Um rato atravessando a rua era capaz de provocar questionamentos sobre a fé. É essa subjetividade que o espetáculo procura transportar para o palco.

Em cartaz no Centro Cultural Justiça Federal, Se Eu Fosse Eu – Clarices reúne três atrizes em cena para construir diferentes faces do universo literário de Clarice Lispector, unindo teatro, poesia e introspecção. Foto: Divulgação.
Em cartaz no Centro Cultural Justiça Federal, Se Eu Fosse Eu – Clarices reúne três atrizes em cena para construir diferentes faces do universo literário de Clarice Lispector, unindo teatro, poesia e introspecção. Foto: @jamesclickphoto.

A escolha da cozinha como cenário nasce desse mesmo olhar. Mais do que um ambiente doméstico, ela se transforma em espaço de criação, memória e liberdade feminina: “Trouxemos uma cozinha para o palco para fazer essa alquimia de reflexão interior e ação real. A peça começou a ser criada a partir do conto O Ovo e a Galinha, que acontece justamente na cozinha. Quando surgiu a ideia do espetáculo, era o centenário da Clarice e vivíamos a pandemia, todos muito dentro de casa. Queríamos celebrá-la, e fazemos até um bolo em cena”, conta.

Rosanna lembra que a própria Clarice escrevia em casa, conciliando a criação literária com a maternidade e as tarefas do cotidiano: “A maioria das mulheres de hoje também se multiplica entre trabalho, maternidade e gestão da casa. A cozinha sempre acaba sendo um lugar muito frequentado. Festa boa termina na cozinha. E existe ali o fogo da criação, esse caldeirão da criatividade onde fazemos nossa bruxaria”, afirma.

Em Se Eu Fosse Eu – Clarices, Rosanna divide o palco com outras duas atrizes, Camila Guerra e Juliana Drummond, que também fazem parte da concepção e direção . Embora cada uma conduza um conto específico, as personagens acabam se misturando até formar diferentes dimensões de uma mesma mulher: “A peça é baseada principalmente em O Ovo e a Galinha, Miss Algrave e Perdoando Deus. Com o amadurecimento do espetáculo fomos entendendo que essas personagens são como as fases da lua. Existem diferentes fases, mas continuam sendo a mesma lua”, define.

Esse mergulho na obra de Clarice também provocou mudanças pessoais: “Clarice me faz refletir todas as noites sobre o meu autoacolhimento. Tem uma frase dela que me acompanha muito: ‘Como posso amar a grandeza do mundo se não posso amar o tamanho da minha natureza?'”, revela.

Na TV o caminho é outro

Rosanna Viegas comenta a construção da detenta que marcou a primeira fase de Quem Ama Cuida. Foto: Reprodução/TV Globo.
Rosanna Viegas comenta a construção da detenta que marcou a primeira fase de Quem Ama Cuida. Foto: Reprodução/TV Globo.

Se o teatro exige introspecção, a televisão pediu exatamente o contrário. Para interpretar Zeni em Quem Ama Cuida, Rosanna precisou se afastar completamente da própria personalidade: “Zeni é fruto de belo trabalho de equipe: texto bem escrito, personagem desafiador e novela dirigida no modo ‘absolute cinema’ é tudo o que uma atriz quer. Fiquei muito concentrada no set. Como o bagulho com ela era pesado e eu posso ser muito falante e palhaça, tentei ao máximo me distanciar da minha personalidade. Quando saía do camarim e entrava no presídio, já virava a chave.”

Segundo a atriz, essa construção também contou com o trabalho do preparador de elenco Tel Lenna e da equipe de direção e fotografia: “Um ângulo bem pensado, uma luz incidindo sobre os olhos em um ambiente escuro… tudo isso ajuda a criar aquele ar de malvada”, comenta.

Apesar de sua participação ter sido curta, Zeni rapidamente se tornou uma das personagens mais comentadas da primeira fase da novela. O público passou a criar teorias sobre um possível retorno da detenta na segunda etapa da história.

“A princípio, não recebi nenhum convite. Mas adoraria que ela voltasse. Zeni pode ganhar muitas camadas, participar de novas tramoias ou até viver uma regeneração. O mais engraçado é que as pessoas me param na rua e nas redes sociais perguntando quando ela volta, se vai participar da vingança da Adriana, se vai enfrentar Pilar… São muitas teorias”, conta, entre risos.

Rosanna admite que ficou surpresa com a repercussão: “Mesmo com medo e raiva da Zeni, parece que as pessoas gostaram bastante da atuação. Então, se ela voltar, acho que vai agradar. Vai que… pimenta para a trama ali não vai faltar.”

Enquanto esse retorno não acontece, a atriz segue no palco, mergulhando diariamente no universo de Clarice Lispector. Dois trabalhos completamente distintos, unidos pela mesma busca: encontrar humanidade em personagens que, cada um à sua maneira, desafiam o público a olhar mais profundamente para si mesmo.

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