Foto: Ellen Soares
Leandro Daniel completa 30 anos de carreira em 2026 com mudança importante em sua trajetória na televisão. Depois de interpretar personagens como Sereno, de I Love Paraisópolis, e o delegado Floro Borromeu, de Mar do Sertão e No Rancho Fundo, o ator se prepara para viver Heraldo Machado em Lá na Minha Terra, próxima novela das seis da Globo, com estreia prevista para 9 de novembro. O novo trabalho marca sua quarta parceria com o autor Mário Teixeira e representa oportunidade de explorar características que, segundo ele, ainda não haviam encontrado tanto espaço em seus papéis anteriores.
Em entrevista exclusiva ao Pittaplay, Leandro conta que Heraldo o desafia a abandonar um repertório de personagens marcados pela excentricidade, pela dureza e pelo humor. Aos 30 anos de profissão, o ator também reconhece que a experiência exige disposição para questionar métodos já conhecidos e encontrar novas possibilidades de interpretação: “Estou saindo do ‘trambiqueiro divertido’, do político atrapalhado e vaidoso que é enrodilhado, do ‘maluco’, do marginal social e começo a habitar as pessoas, verdadeiramente de bem, como Heraldo. Acho que a minha frequência está mudando!”, afirma, entre risos.
Heraldo e a representação do homem nordestino

Em Lá na Minha Terra, Heraldo é um homem de 51 anos que deixa o Nordeste e se muda para São Paulo em busca de melhores condições de vida. Ao lado da esposa, Josélia (Suzy Lopes), e das filhas Marleide (Castorine) e Lucijane (Nina Tomsic), ele constrói uma nova rotina na capital paulista. A família vive em casa modesta na Barra Funda, enquanto Heraldo trabalha como motorista na residência de Ismália (Camila Morgado) e conquista a confiança de Cesário (Daniel de Oliveira).
A trajetória migratória aproxima o personagem da experiência pessoal de Leandro, que deixou o Paraná e se estabeleceu no Rio de Janeiro. O ator também reconhece no personagem sentimentos relacionados à responsabilidade familiar, ao trabalho e à procura por melhores oportunidades: “Sou tocado pelo drama do personagem Heraldo porque reconheço seus sonhos, seus medos e desejos, assim como seus dramas. Conheço na minha pele”, explica.
Para ele, a proximidade entre intérprete e personagem é parte do processo criativo. Leandro acredita que as experiências acumuladas ao longo da vida deixam marcas que inevitavelmente participam da composição de cada papel. Entretanto, ressalta que as diferenças entre sua história e a de Heraldo são igualmente importantes para construir uma identidade própria.
Essa preocupação também aparece na maneira como pretende representar o homem nordestino. Questionado sobre os estereótipos que historicamente atravessaram essa figura na dramaturgia brasileira, o ator destaca o desejo de apresentar um personagem distante das representações simplificadas: “Quero agregar a imagem de um homem real, distante dos clichês de regionalismo e que sirva justamente para desmistificar os estereótipos, preconceitos e percepções rasas.”
Leandro identifica na escrita de Mário Teixeira uma atenção especial às pessoas que enfrentam desigualdades sociais e precisam encontrar maneiras de sobreviver sem abandonar seus valores.
Heraldo, segundo ele, representa essa força de trabalho e o desejo de oferecer uma vida melhor à família. Ao mesmo tempo, apresenta uma masculinidade que se distancia de comportamentos violentos, autoritários e excessivamente individualistas: “Ele surge no universo da novela com a missão de mostrar uma alternativa a esse comportamento masculino excessivo, tóxico, violento, egocêntrico, ganancioso, de ambição desmedida, capaz de levar dor e sofrimento a seus pares, sem qualquer culpa.”
A quarta parceria com Mário Teixeira
A relação profissional entre Leandro Daniel e Mário Teixeira começou em I Love Paraisópolis, em 2015. Na novela, o ator interpretou Sereno, inicialmente ligado ao núcleo de Grego, personagem de Caio Castro. Com o desenvolvimento da trama, Sereno conquistou novas possibilidades, passou a circular por outros núcleos e ganhou até um irmão gêmeo.
Anos depois, a parceria foi retomada em Mar do Sertão, com o delegado Floro Borromeu, personagem que retornou em No Rancho Fundo. Ao olhar para esses trabalhos, Leandro percebe que Mário costuma encontrar uma contradição interessante entre sua personalidade fora de cena e os tipos que escreve para ele: “Ele vê uma contradição interessante dramaturgicamente na minha figura de homem polido, tranquilo e gentil, com esses personagens de homens duros, ríspidos e expansivos que consigo defender bem”, observa.
O ator também atribui parte do crescimento desses personagens à experiência adquirida no teatro e à maneira como procura trabalhar coletivamente. Para ele, conquistar espaço dentro de uma novela não significa disputar protagonismo ou tentar chamar atenção individualmente: “Desde a primeira vez que estive em cena, não apenas na TV, fui determinado a observar, ouvir e trocar com quem divido a trama. É isso que faz com que o meu personagem exista.”
Leandro explica que procura compreender a função de cada cena dentro da narrativa e trabalhar em conjunto com a direção e os colegas. Dessa disponibilidade surgem oportunidades para improvisar, aprofundar comportamentos e ampliar a presença dos personagens: “Acho que meus personagens crescem porque, por serem menores, têm um campo aberto com mais espaço para se desenvolver.”
O desafio de abandonar as próprias certezas

Ao falar sobre o que Heraldo representa neste momento da carreira, Leandro recupera expressão que aprendeu com o diretor e preparador de elenco Eduardo Milewicz: “A batalha está perdida”.
A frase, segundo ele, está relacionada à necessidade de abandonar certezas acumuladas durante a profissão. Depois de tantos anos de trabalho, um ator pode desenvolver maneiras eficientes de interpretar determinadas situações. O problema aparece quando essas soluções começam a ser repetidas automaticamente, reduzindo o espaço para a descoberta: “Desbarrancar-se é isso. Desprender, desapegar, desistir das certezas que nos amarram”, explica.
Leandro considera que Heraldo representa uma mudança importante porque o afasta de tipos que já interpretou diversas vezes. O personagem também apresenta perspectivas sobre religião, convivência e relações humanas que provocam reflexões pessoais: “A relação que ele tem com a religião é muito diferente da minha percepção, sua relação com as pessoas: leve, alegre e desprovida de pré julgamentos me ensina e me inspira.”
Aos 30 anos de carreira, o ator continua procurando maneiras de evitar que a experiência se transforme em acomodação: “Quando identifico e percebo que estou preguiçoso, vítima do ‘é só ir lá e fazer’, penso no mundo de possibilidades e oportunidades que essa nova ideia vai me trazer.”
“Quando a ilusão acaba, sobra o trabalho”
A passagem de três décadas também modificou a maneira como Leandro Daniel compreende o sucesso e sua posição no mercado artístico. O ator, que recebeu o Kikito de Melhor Ator Coadjuvante no Festival de Gramado de 2021 por Jesus Kid, construiu uma trajetória que inclui produções como Vips, Entrelinhas, Todo Dia a Mesma Noite, Reality Z, Sentença e Cidade de Deus: A Luta Não Para.
Entretanto, quando convidado a refletir sobre o que mudou para além dos títulos e prêmios, Leandro apresenta uma resposta que coloca a maturidade profissional no centro da conversa: “Perdi a ingenuidade, regulei a idealização e ampliei meu olhar. Ganhei autonomia e desenvolvi autorresponsabilidade sobre minha carreira.”
Ele reconhece que, no começo, a expectativa de conquistar fama pode interferir na relação do artista com o próprio ofício. A pressa por trabalhar, aparecer e alcançar reconhecimento acaba produzindo comparações e expectativas que nem sempre correspondem à realidade da profissão: “A boa notícia é que quando a ilusão acaba, sobra o trabalho e tudo fica muito mais divertido e prazeroso”, afirma.
Essa mudança também aparece na maneira como avalia novas oportunidades. Embora continue disposto a trabalhar e reconheça a importância de permanecer ativo, Leandro diz que passou a considerar com mais atenção os aspectos éticos e pessoais envolvidos em cada proposta.
O ator também chama atenção para a instabilidade do mercado brasileiro, no qual poucos profissionais conseguem escolher livremente todos os projetos: “Pouquíssimos atores e atrizes no Brasil têm a condição de escolher todos os seus trabalhos. O ofício é duro conosco em uma série de aspectos e os mecanismos de produção são igualmente duros.”
Para ele, o reconhecimento público não garante estabilidade. A exposição pode diminuir rapidamente depois que um trabalho termina, exigindo dos artistas novas estratégias para continuar produzindo e encontrando oportunidades: “A maioria está no corre mesmo”, resume.
Da atuação à criação de seus próprios projetos
Essa necessidade de diversificar a atuação profissional também levou Leandro a investir na escrita, direção e produção audiovisual.
Ao lado de Fabi, sua companheira de vida e de trabalho, o ator desenvolve projetos por meio da Colombo Produções e da Colombo Filmes. Entre eles estão Gilka, cinebiografia da escritora Gilka Machado, e Marvin, história sobre um menino do interior do Rio Grande do Sul que tenta proteger a família das consequências dos desastres climáticos ocorridos entre 2023 e 2024.
A produtora também trabalha em outros projetos, incluindo os curtas Rio Vermelho e A Barca do Inferno, além da série Não-Morro! Subterrâneos e Ruínas, que aborda o desmonte do Morro do Castelo e suas consequências para a formação do Rio de Janeiro contemporâneo.
Leandro também prepara a chegada aos palcos cariocas de Uma Juventude Fascinante, adaptação da obra Clase, do dramaturgo chileno Guillermo Calderón. O espetáculo, dirigido por Diego Fortes, acompanha o encontro entre um professor e uma aluna durante um período de manifestações estudantis.
Para o ator, experimentar outras funções dentro do audiovisual transformou sua relação com os profissionais que trabalham ao seu lado: “Escrever, dirigir e produzir me deram outra dimensão do fazer artístico e passei a respeitar e obedecer muito mais a criação de cada profissional enquanto trabalho como ator.”
Ele admite que, anteriormente, por vezes interferia em decisões que ultrapassavam sua responsabilidade como intérprete. A experiência do outro lado da produção ampliou sua compreensão sobre a quantidade de escolhas necessárias para realizar uma obra.
Ao mesmo tempo, esse conhecimento permite que ele utilize elementos técnicos, como enquadramentos, lentes e movimentos de câmera, para aprimorar sua própria atuação.
Trinta anos de carreira e novos caminhos
Além de Lá na Minha Terra, Leandro Daniel também integra o elenco de Na Batalha, série gravada no Paraná em 2025, com previsão de estreia em 2027. Na produção, interpreta Ancelmo, um pastor evangélico conservador que se opõe aos artistas de hip-hop de sua comunidade.
O personagem se soma a uma trajetória na qual o ator passou pelo cinema, pela televisão, pelo streaming e pelo teatro, além de desenvolver seus próprios projetos. Aos 30 anos de profissão, Leandro afirma que continua atento à necessidade de criar oportunidades e preservar sua autonomia: “Hoje ter ideias e força de trabalho me alimenta. Não há um dia em que eu não acorde e pense: o que eu posso fazer pelo meu trabalho hoje? E o que eu puder fazer naquele dia, eu vou fazer.”
A chegada de Heraldo em Lá na Minha Terra representa mais uma dessas possibilidades. Depois de três décadas interpretando personagens que conquistaram espaço pelo humor, pela intensidade e pelas contradições, Leandro Daniel encontra agora a oportunidade de apresentar ao público um homem marcado pela gentileza, pelo trabalho e pelo compromisso com a família.
Para um ator que aprendeu a desconfiar das próprias certezas, a experiência de 30 anos continua acompanhada da disposição para descobrir novos caminhos.
Jornalista, produtor audiovisual, crítico de TV, cinema e literatura e autor de seis livros. Apaixonado por novelas desde a infância, dedica-se há mais de uma década a analisar narrativas, personagens e atuações. É fundador do Pittaplay.
