A literatura de Andremis nasce de um lugar onde emoção e identidade caminham lado a lado. Antes mesmo de pensar em publicar livros, ela já escrevia para sobreviver aos próprios sentimentos. Foram as poesias da adolescência, os textos escritos para amores silenciosos e as fanfics produzidas durante madrugadas solitárias que ajudaram a construir não apenas sua escrita, mas também a mulher e autora que existe hoje. Em Fragmento, obra que mergulha em temas como maternidade, trauma, amor e finitude, essa sensibilidade aparece de forma ainda mais madura. A história acompanha Kamilah, mãe atravessada pelo medo da perda enquanto tenta salvar a filha diagnosticada com um tumor cerebral infantil. No meio da dor, surge Giulia, neurocirurgiã tão fechada para o mundo quanto acostumada a operar vidas em silêncio. Juntas, as duas constroem relação que atravessa o caos sem deixar de falar sobre esperança.
Quando escrever era uma forma de sobreviver

Para a autora, escrever nunca foi apenas exercício criativo. Foi, antes de tudo, maneira de compreender a si mesma: “Acho que foi muito importante começar a escrever poesias porque consegui me entender melhor e, principalmente, aprender a descrever o que eu queria e da forma como gostaria. Também influenciou muito a questão poética, porque incorporo o lirismo em diversas passagens pelos livros. É uma coisa que me pertence muito e que faço questão de sempre colocar”, conta.
Essa construção íntima da escrita também atravessa diretamente a maneira como ela cria suas personagens. Mulher lésbica, Andremis transformou sua própria trajetória de descoberta em combustível narrativo para oferecer aos leitores aquilo que lhe faltou durante a juventude: representatividade. Em suas histórias, personagens LGBTQIAP+ não aparecem como símbolos vazios ou arquétipos prontos. Elas existem com humanidade, conflitos e fragilidades reais: “O maior impacto é poder escrever personagens que as pessoas se identificam. Cresci com poucas representações, me descobri como lésbica sem esse apoio literário. Acho que gostaria de ter tido mais obras que me ajudassem a me entender. Quando escrevo personagem que está se descobrindo também, consigo fazer isso de forma bem verossímil, porque passei pelo processo. Gosto de escrever sobre essa diversidade e fazer com que os leitores se sintam acolhidos por terem onde se apoiar”.
Das fanfics à construção de comunidade

Antes da autopublicação chegar, vieram as fanfics. E foi nesse universo que Andremis aprendeu não apenas técnica, mas também pertencimento. Entre leitores ansiosos por atualizações e mensagens perguntando sobre novos capítulos, ela entendeu que histórias também criam comunidade: “Aprendi principalmente a usar travessão”, conta bem humorada, e continua: “Participava de fandom que era meio morto, então fui capinando o lugar pra que outras pessoas viessem. Mas tirando isso, me ensinou sobre construir comunidade. Comecei completamente do nada com ideia que tive durante o banho e logo a fanfic se tornou uma das mais curtidas e lidas do fandom. Diversas pessoas vinham nas minhas DMs me perguntar quando eu ia continuar escrevendo, o que mais eu escreveria e coisas desse tipo. Acho que foi um dos maiores ensinamentos e que coloquei em prática assim que comecei a escrever profissionalmente”.
A pandemia acabou funcionando como espécie de ponto de ruptura entre a escrita íntima e a carreira literária. O incentivo dos leitores foi o que a fez perceber que suas histórias poderiam ultrapassar o espaço pessoal e alcançar outras vidas: “O que me motivou, principalmente, foi a recepção dos leitores. Eles sempre foram muito gentis e me pediam para escrever mais, pois queriam me ler. Graças a essa resposta comecei a pensar em autopublicação. Claro que não ia publicar qualquer coisa. Apenas em 2023 tentei lançar um conto na amazon e ele foi melhor do que o esperado para um começo”.
Uma história nascida da revolta e da dor

Em Fragmento, a autora mergulha em narrativa que parece costurada entre respirações curtas, corredores hospitalares e sentimentos que tentam sobreviver ao desmoronamento do mundo. A origem da história nasce justamente de um incômodo. De revolta silenciosa diante de uma série que tratava um diagnóstico cerebral de maneira superficial: “Fragmento surgiu desta produção que assisti, onde a protagonista foi diagnosticada com tumor no cérebro do nada, sem qualquer sinal antes, e resolveu tirar a própria vida. A partir da minha revolta, pensei na possibilidade de escrever um livro com personagens maduras e que esse problema do tumor cerebral fosse apresentado e resolvido de forma mais verossímil”.
Mas a história também carrega fragmentos de vidas reais. Andremis revela que parte da construção emocional da trama veio de experiências familiares transformadas em ficção: “Além disso, aproveitei algumas vivências de familiares como forma de contar a história deles também, ainda que mascaradas por Kamilah e Samia. A continuidade de cada acontecimento foi surgindo sem muita preocupação, mas com muita certeza também”.
Ao longo da narrativa, maternidade e medo caminham juntos. Não existe romantização da dor, mas tentativa delicada de encontrar beleza mesmo quando tudo ameaça ruir. A autora explica que a principal reflexão da obra está justamente na fragilidade da existência: “Talvez a mais importante reflexão que proponho é a de que a vida é muito rápida e instável. A qualquer momento, tudo pode desabar, e o mundo que a gente conhece se tornar outra coisa. Sempre trago os momentos mais ‘bobos’ para que sejam apreciados no momento em que eles acontecem para reforçar essa ideia de que cada instante deve ser vivido intensamente. Algo meio carpe diem”.
Entre corredores frios e afetos que curam

No centro emocional da história está a relação entre Kamilah e Giulia. Duas mulheres atravessadas por cicatrizes diferentes, mas igualmente cansadas de sobreviver sozinhas. E é justamente nesse encontro que Fragmento encontra sua pulsação mais humana: “A relação que se desenvolve entre elas é imprescindível para que o amor floresça e mostre que amar alguém pode ser leve e fácil. Ainda que elas estejam envoltas em dramas pessoais, elas conseguem ter alguém para apoiar nas decisões, para dar suporte emocional e para que possam ganhar confiança novamente”.
Giulia, especialmente, passa por transformação silenciosa ao longo da obra. A médica racional e aparentemente inacessível vai permitindo que suas próprias barreiras emocionais desmoronem: “Ela começa como uma mulher séria e quase ‘sem sentimentos’, meio robótica, e ao passo em que ela vai se envolvendo, os muros que ela construiu vão caindo e o leitor consegue perceber que tudo o que ela tinha era medo de ser subjugada mais uma vez. Ao perceber que começa a se apaixonar por Kamilah, ela move mundos e montanhas para proteger sua amada e Samia”.
Personagens maduras para dores reais
O cuidado com a ambientação hospitalar também se tornou parte essencial da construção do livro. Para Andremis, era importante que a dor física e emocional das personagens não fosse tratada de maneira rasa. Por isso, mergulhou em pesquisas sobre tumores cerebrais infantis, rotina médica e neurocirurgia: “Quis entender o que melhor se adequaria à trama, cirurgias, rotina hospitalar, plantões… Em 2023, quando decidi revisitá-lo, foi uma época em que estava trabalhando com assessoria de imprensa para um hospital, então tive acesso muito facilitado aos médicos e rotinas. Duas oncologistas me ajudaram bastante inclusive e me tiraram muitas dúvidas sobre os temas que eu abordo”.
Ainda assim, mais do que o ambiente médico, o que realmente interessa à autora são os conflitos humanos que existem dentro dessas paredes frias: “A principal inspiração foi que eu queria criar personagens maduras, com dramas reais e adultos, pois sentia falta de personagens com essa profundidade emocional e de trama”.
Literatura como espelho e acolhimento

A representatividade LGBTQIAP+ segue sendo compromisso permanente em sua literatura. Não apenas como bandeira, mas como possibilidade de acolhimento: “Acredito que quanto mais representatividade, melhor. Cresci com poucas personagens para me inspirar em ser quem sou, então gosto de poder dar essa chance aos adolescentes LGBTQIAP+ que estão tentando descobrir suas próprias identidades”.
E talvez seja justamente isso que torna a escrita de Andremis tão próxima de quem a lê. Seus livros parecem entender dores silenciosas que muitas vezes não encontram espaço no mundo real. Seus personagens não tentam ser perfeitos. Tentam sobreviver. Tentam amar apesar do medo. Tentam existir apesar das rachaduras.
Agora, enquanto prepara novos projetos, a autora promete expandir ainda mais esse olhar sobre identidade e pertencimento: “Tenho engatilhado um livro que vai fortalecer muito a cultura latina, é uma obra que vai focar 100% na américa do sul e isso também vai ser um desafio, porque vou precisar fazer muitas pesquisas para retratar os cenários da forma mais fidedigna possível”.
No fim, é exatamente isso que Andremis procure deixar em cada página: a sensação de que ninguém deveria atravessar a própria história sem se sentir visto: “Pra quem está me conhecendo agora, desejo que essa pessoa consiga se conectar com as personagens e que consiga se ver, pelo menos um pouco, retratada como gostaria de ser vista. É isso que procuro trazer em cada pessoinha que eu crio: identidade”.
