Bukassa Kabengele fala sobre representatividade, memória e o papel da arte na reparação de histórias apagadas

Bukassa Kabengele vive um dos momentos mais importantes da carreira, transitando entre Globo, Netflix, HBO Max e cinema com personagens que ajudam a ampliar o olhar sobre a história e a diversidade brasileira. Foto: Oseias Barbosa

Poucos atores vivem momento tão singular quanto Bukassa Kabengele. Atualmente, o público pode encontrá-lo em produções exibidas por diferentes plataformas e emissoras, transitando entre universos completamente distintos. Em A Nobreza do Amor, ele interpreta José dos Santos, conhecido como Zambi, homem marcado por disputas políticas, pertencimento e amor. Em Emergência Radioativa, da Netflix, dá vida a Evenildo, personagem atravessado por uma das maiores tragédias da história do Brasil. Já em Dona Beja, participa de releitura que revisita temas ligados à raça, gênero e desigualdade social.

Mas existe algo que conecta todos esses trabalhos. Mais do que personagens diferentes, Bukassa parece interessado em histórias que ajudam a revisitar memórias, ampliar representações e lançar novos olhares sobre questões que atravessam a sociedade brasileira.

Em entrevista exclusiva ao Pittaplay, o ator refletiu sobre africanidade, pertencimento, reparação histórica e o papel da arte na construção de narrativas mais amplas e diversas.

Um romance atravessado pela política

Em A Nobreza do Amor, José dos Santos abre mão da possibilidade de ocupar um trono para viver uma história de amor. Mas, para Bukassa, reduzir a trajetória do personagem a um romance seria simplificar uma narrativa muito mais complexa.

“Sim, tem amor, mas tem política envolvida, tem conflitos étnicos envolvidos. Acho que isso é o que torna essa relação de José e Teresa tão madura e complexa.”

Segundo ele, a história também se constrói a partir das relações familiares e das articulações que cercam a retomada do trono pela princesa deposta: “A relação dele com sua sobrinha Alika e com a Rainha Niara mostra o preparo intelectual e a inteligência tática deles ao prepararem a retomada do trono. É uma história de lutas sociopolíticas e, em termos de relações humanas, profundas.”

Africanidade, pertencimento e memória

Para Bukassa Kabengele, a representatividade vai além da presença em cena. O ator defende narrativas que valorizem diferentes perspectivas e ajudem a combater décadas de apagamento histórico e cultural. Foto: Oseias Barbosa
Para Bukassa Kabengele, a representatividade vai além da presença em cena. O ator defende narrativas que valorizem diferentes perspectivas e ajudem a combater décadas de apagamento histórico e cultural. Foto: Oseias Barbosa.

A construção de José dos Santos também encontrou ecos na própria trajetória do ator. Bukassa explica que a possibilidade de utilizar experiências pessoais dentro da composição do personagem contribuiu para tornar a interpretação mais verdadeira.

“É muito gratificante quando temos contatos diretos de nossas experiências de vida para serem cedidos ao personagem. Acho que ajuda na naturalidade e na veracidade das cenas.”

Embora faça questão de destacar que personagem e intérprete são pessoas diferentes, ele reconhece que existem pontos de encontro importantes: “José e Bukassa são diferentes, mas é bom saber que, apesar de outra época, viemos os dois do mesmo continente e temos valores culturais que se conversam. Isso preenche a alma do personagem e dá base histórica real a ele.”

Um novo lugar para personagens negros

Ao falar sobre o impacto de A Nobreza do Amor, Bukassa destaca a importância de apresentar personagens negros em posições historicamente negadas pela televisão brasileira: “A novela dá ao público a possibilidade de ver negros em outros postos que nos foram negados por muito tempo, fruto do racismo.”

Para ele, esse movimento vai além da representatividade superficial: “Isso abre as cabeças e ajuda a mudar os olhares frente a décadas de apagamento e desumanização de pessoas negras, bem como de suas culturas. Nesse sentido, é um divisor de águas.”

Essa perspectiva também aparece na relação entre José e Teresa. Ao lado de Ana Cecília Costa, Bukassa construiu casal que, segundo ele, enfrenta conflitos culturais e raciais sem deixar de viver o amor em sua plenitude.

“É um casal baseado acima de tudo no amor. Nós pensamos e trabalhamos muito esses detalhes. São personagens que enfrentam diferenças culturais, conflitos raciais e sociais, mas continuam escolhendo compartilhar a vida e se amar.”

Emergência Radioativa e as vítimas esquecidas

Em entrevista ao Pittaplay, Bukassa Kabengele refletiu sobre memória, pertencimento, africanidade e o papel da arte na construção de novas formas de enxergar o Brasil e suas histórias. Foto:  Oseias Barbosa.
Em entrevista ao Pittaplay, Bukassa Kabengele refletiu sobre memória, pertencimento, africanidade e o papel da arte na construção de novas formas de enxergar o Brasil e suas histórias. Foto: Oseias Barbosa.

Se em A Nobreza do Amor o foco está na memória e na identidade, em Emergência Radioativa o ator mergulha em uma das maiores feridas da história brasileira.

Para ele, Evenildo e sua família não podem ser vistos apenas como vítimas da contaminação pelo Césio-137: “Evenildo e sua família são vítimas de um sistema social baseado na desigualdade. São da parte pobre da população, que tem menos acesso à informação.”

Bukassa acredita que a tragédia expôs problemas que já existiam muito antes do acidente: “A catástrofe serviu de lente de aumento para mostrar a diferença de classes e o tratamento sem diálogo que essas vítimas receberam.”

Durante as gravações, a carga emocional da história também o afetou: “Foi difícil e teve muitos momentos de angústia. Mexeu comigo emocionalmente. Mas a gente se prepara como ator para cair, levantar, sacudir a poeira e seguir em frente.”

Dona Beja e um olhar reparador sobre o passado

Na nova versão de Dona Beja, Bukassa interpreta Sampaio, personagem que encontrou sua força justamente nos conflitos silenciosos: “Para mim, o mais forte na construção de Sampaio foram as dores que ele viveu no silêncio. A impotência em relação aos problemas da família e aquilo que estava fora de seu controle.”

Ao analisar a nova adaptação, o ator acredita que existe preocupação legítima em revisitar o passado sob novas perspectivas: “A escolha do autor é coerente com novos olhares de narrativas para obras de época. Existe o cuidado de mostrar abusos, desigualdades de gênero, raça e classe social.”

Mais do que uma simples atualização da história, ele enxerga algo maior: “É arte, mas sempre com olhar político e reparador.”

“Estamos começando”

Após quase quatro décadas de carreira, Bukassa vive momento de grande visibilidade, transitando entre Globo, Netflix, HBO Max e também o cinema, com o longa Narciso.

Ainda assim, quando questionado sobre os avanços da representatividade no audiovisual brasileiro, sua resposta é cautelosa: “Estamos começando. Acho que ainda há muito para desenvolver.”

Para ele, o próximo passo passa necessariamente pela ampliação dos espaços de decisão: “Precisamos de mais diretores e autores negros, porque isso muda a forma de ver e narrar as histórias.”

Mesmo reconhecendo os avanços recentes, o ator acredita que a transformação ainda está em curso: “O caminho é esse: diversificar a cara das pessoas nas telas e mostrar a cara do Brasil tal como ele é.”

E é essa visão que conecta todos os seus trabalhos recentes. Seja vivendo um rei, um pai de família atingido por tragédia ou um patriarca marcado por silêncios, Bukassa Kabengele continua interessado em algo maior do que os próprios personagens: contar histórias que ajudem o público a enxergar o Brasil por ângulos que durante muito tempo permaneceram fora do enquadramento.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *