Vini Carvalho encara Habeas Corpus aprendendo a confiar na própria bagagem

Vini Carvalho fala ao Pittaplay sobre Silas em Habeas Corpus, amadurecimento como ator, cinema independente e seus novos caminhos como realizador.

Foto: Jazmin Bello

Na primeira leitura de Habeas Corpus, Vini Carvalho olhou para o próprio nome na mesa e depois para os artistas sentados ao seu redor. A nova série jurídica da Netflix reunia profissionais que ele acompanhava e admirava, e ocupar uma cadeira entre eles produziu uma mistura de realização e medo. Quando aquele primeiro encontro terminou, o ator ligou para a mãe: “Mãe, vai ser legal mesmo.”

O momento também exigiu que Vini reconhecesse a trajetória que já havia construído: “Mesmo em ascensão, como é o meu caso, eu preciso bancar ela, preciso acreditar nela. Então foi bom, tipo: ‘Vamos lá, eu preciso estar no mesmo nível desses titãs’.”

Essa confiança acompanha um novo passo de sua carreira. Aos 26 anos, o ator integra Habeas Corpus, série de oito episódios que estreia em 23 de setembro na Netflix, com direção geral de Luiz Villaça e produção da Café Royal. A trama acompanha uma professora de Direito e um grupo de estudantes que tentam provar a inocência de um homem condenado, enquanto uma das alunas carrega uma conexão secreta com o passado da professora.

Vini interpreta Silas, namorado da personagem de Any Gabrielly, jovem que sonha em ser barbeiro e participa da criação de Ulisses, filho da companheira. Foi essa relação familiar que colocou o ator diante de algo que ainda não havia experimentado profissionalmente.

Silas apresentou a Vini uma experiência de paternidade

Vini Carvalho fala ao Pittaplay sobre Silas em Habeas Corpus, amadurecimento como ator, cinema independente e seus novos caminhos como realizador.
Vini Carvalho fala ao Pittaplay sobre Silas em Habeas Corpus, amadurecimento como ator, cinema independente e seus novos caminhos como realizador. Foto: Jazmin Bello.

“Ser pai” foi a primeira resposta de Vini quando questionado sobre aquilo que Silas havia exigido dele pela primeira vez. Além de interpretar uma figura paterna, o ator também nunca havia trabalhado diretamente com uma criança em cena. O personagem possui desejos próprios enquanto divide sua rotina com uma mulher envolvida nos conflitos centrais da série. Encontrar Silas dentro dessa estrutura exigiu um processo gradual de aproximação.

“Com o passar do tempo eu fui aprendendo a gostar do Silas e aprendendo a me ver nele, sabe?”, conta. Vini define a atuação como um processo de autodescoberta e encontrou referências também em experiências próximas de sua realidade. “O Silas é um cara com um coraçãozão muito grande. Eu sou essa pessoa também.”

A relação com Any Gabrielly ganhou forma durante ensaios e conversas em que os dois buscaram experiências capazes de alimentar a contracena. Vini destaca o espaço oferecido pelo roteiro para trabalhar nuances e subtextos, além da preparação de elenco e da condução da direção.

Para explicar esse processo coletivo, ele recorre ao futebol: “Cada um vai passando a bola para o outro e vai jogando junto para criar uma coisa legal”. Essa atenção ao coletivo também aparece na maneira como Vini se relaciona com o texto. Diante de uma produção brasileira que chegará simultaneamente ao público da Netflix em diferentes países, o ator prefere partir daquilo que já foi construído pelos roteiristas.

“Eu como ator tento respeitar muito o trabalho dos roteiristas e não alterar nada, a não ser que um diretor me peça. […] A gente precisa trazer verdade para esse texto.”

“Não é sobre o Vini, é sobre a história”

A percepção sobre o próprio papel dentro de uma produção mudou conforme Vini começou a ocupar outras funções atrás das câmeras. Desde então, conhecer as dificuldades de colocar um projeto de pé ampliou sua compreensão sobre colaboração e sobre a responsabilidade de cada profissional envolvido: “Ajuda muito na confiança, ajuda muito na colaboração, porque a gente entende que não é sobre o Vini, é sobre a história. Vamos juntos nisso.”

Parte desse aprendizado acontece paralelamente em Cabelos Compridos, primeiro longa autoral desenvolvido ao lado de Johnny O’Donnell. O projeto está em pós-produção e começou a ser escrito há cerca de três ou quatro anos.

Vini adianta que a história discute família e consumismo dentro de um mundo distópico e considera o projeto uma tentativa de experimentar caminhos menos recorrentes no cinema nacional. Entre suas referências estão cineastas como Federico Fellini e Robert Altman. O próprio ator reconhece a dimensão das inspirações, mas entende que criar também passa por estudar aquilo que grandes realizadores fizeram antes dele.

O trabalho desenvolvido em Cabelos Compridos acabou retornando à atuação. Segundo Vini, aquilo que aprendeu conduzindo seu próprio filme contribuiu para a maneira como chegou a Silas em Habeas Corpus.

“O povo brasileiro está aprendendo a gostar de se olhar no espelho”

A experiência com o cinema independente também deixou Vini atento ao momento vivido pelo audiovisual brasileiro. Depois de participar de produções como Sentença, Pico da Neblina, Rota 66: A Polícia que Mata, Depois que Tudo Mudou e Colônia, ele observa com otimismo o espaço conquistado por histórias nacionais: “Vejo o início de um mercado muito próspero do cinema nacional”, afirma. Para Vini, esse movimento chega depois de muitos anos em que profissionais brasileiros já produziam trabalhos criativos e consistentes.

A maneira como ele resume essa mudança passa pela relação do público com as próprias histórias: “Eu acho que o povo brasileiro está aprendendo a gostar de se olhar no espelho. Eu acho que isso é importante como nação”. Ao mesmo tempo, Vini identifica entre os próprios realizadores certo receio de experimentar gêneros e propostas diferentes. É nesse ponto que conecta sua visão sobre o mercado ao caminho que pretende seguir como criador: arriscar faz parte da identidade artística que está tentando construir.

Ator, diretor, realizador e, antes de tudo, artista

Quando olha para o começo da própria carreira, Vini diz que não mudaria o caminho percorrido. Se pudesse conversar com uma versão mais jovem de si mesmo, escolheria um conselho curto: “Aguenta firme e tenha fôlego.”

Esse fôlego agora o leva a diferentes áreas. Além da atuação e do cinema autoral, ele conta que possui outras ideias em desenvolvimento e pretende se aventurar também na escrita de um livro. Aos poucos, a definição profissional que deseja apresentar ao mercado fica maior: “O Vini Carvalho é um ator, um diretor, posso já dizer isso com um pouco de propriedade, respeito e humildade, um realizador audiovisual. Mas ele, acima de tudo, é um artista.”

A chegada de Habeas Corpus encontra Vini exatamente nesse momento. O ator que se assustou ao encontrar seu nome entre profissionais que admira na primeira leitura também começa a compreender que aquela cadeira não surgiu por acaso. Enquanto Silas apresenta ao público mais uma parte de seu trabalho, Vini continua ampliando aquilo que deseja fazer atrás e diante das câmeras, atraído, como ele próprio define, pelo novo e pelo desafio.

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