Eduardo Mossri mergulha nas próprias raízes para viver Miguel em A Nobreza do Amor: “É Memória e criação ao mesmo tempo”

Miguel não entra em cena, ele chega carregado de história. Entre tradição, afeto e controle, o personagem se constrói no detalhe: no olhar que observa antes de falar, na pausa que revela mais do que o texto. Eduardo Mossri encontra nesse pai uma contradição potente, onde o amor não falta, ele transborda, ainda que da forma errada. Foto: Instagram edumossri

Há instante silencioso que define mais do que qualquer fala o que Eduardo Mossri constrói em A Nobreza do Amor. Ele descreve esse momento com precisão: senta à mesa, posiciona as mãos, respira e algo atravessa: “Veio meu pai. Veio meu avô que eu não conheci. Vieram memórias do que diziam sobre ele”, conta. Não é apenas interpretação. É evocação. É presença herdada ganhando corpo diante da câmera.

Esse movimento não nasce agora. Há mais de uma década, Mossri investiga a própria história em cena com o espetáculo Cartas Libanesas, criado como tentativa de se aproximar de raízes que, até então, eram mais ausência do que memória concreta: “Nasceu desse desejo de conhecer, de pesquisar, de usar a arte como mecanismo”, explica. Ao longo dos anos, esse gesto pessoal se expandiu até alcançar algo maior: não apenas a própria família, mas o arquétipo de quem atravessa fronteiras, abandona terra natal e precisa recomeçar.

Herança que atravessa o corpo

Família que se constrói no conflito, mas nunca perde o afeto como base. Entre tradição e desejo, Miguel, Salma e Fátima sustentam uma dinâmica que pulsa no não dito, no olhar que hesita, na palavra que chega atravessada. É nesse espaço que a novela cresce: quando o amor não resolve, mas também não desaparece.
Foto: Estevam Avellar
Família que se constrói no conflito, mas nunca perde o afeto como base. Entre tradição e desejo, Miguel, Salma e Fátima sustentam uma dinâmica que pulsa no não dito, no olhar que hesita, na palavra que chega atravessada. É nesse espaço que a novela cresce: quando o amor não resolve, mas também não desaparece.
Foto: Estevam Avellar

Quando o convite para viver Miguel Curi chegou, a primeira reação não foi imediata aceitação. Houve dúvida: “Meu Deus, vou fazer mais um árabe?”, relembra. A pergunta não era sobre capacidade, técnica já consolidada, mas sobre direção. Para onde isso o levava enquanto artista? O que significava repetir esse lugar em momento histórico atravessado por conflitos e retrocessos? A resposta não veio de fora. Veio de dentro: “Tem simbolismo que vem da minha história, mas também do que acredito como pessoa. Isso me fez acolher e aceitar esse papel”.

Miguel não nasce apenas do texto. Ele surge da fricção entre escrita, memória e intuição. Mossri reconhece que há construção, leitura de roteiro, entendimento de contexto e análise de conflito, mas há também aquilo que escapa ao controle racional: “Tem muita intuição. Tem coisas que eu não sei explicar. Vêm”. Ele cita, por exemplo, palavras em árabe que surgem espontaneamente durante o processo, carregadas de significado que ele só compreende depois. “É como se eu estivesse transpirando tudo isso”.

Amor que controla, não que falta

Dentro da narrativa, Miguel carrega tensão central: deseja controlar o destino da filha, Salma, muito bem defendida por Rayssa Bratillieri, e insiste em casamento que ela não quer. O conflito, que poderia facilmente cair em leitura simplificada, ganha outra dimensão na construção do ator. Mossri recusa qualquer aproximação rasa: “Não é falta de amor. Pelo contrário. É muito amor”, afirma. Para ele, a chave está em entender que Miguel não age por frieza, mas por senso de proteção moldado por herança cultural e experiência de deslocamento.

Esse olhar redefine completamente a percepção do personagem. Miguel não impõe por crueldade. Ele repete: “Existe convenção cultural que ele recebeu e está reproduzindo”, explica. Ao lembrar da trajetória do avô, que chegou ao Brasil sem falar a língua, construiu vida do zero e sustentou família, Mossri encontra camada essencial para sustentar o personagem. Há medo ali. Medo de perder o que foi construído. Medo de ver desmoronar aquilo que deu sentido à própria existência.

Essa construção impede que Miguel seja reduzido a uma palavra. Mossri rejeita qualquer tentativa de simplificação: “A gente não é uma palavra só. A gente é complexo, torto, quebrado”. É nessa complexidade que ele se ancora para sustentar cada cena. Mesmo quando o texto aponta rigidez, ele injeta afeto. Mesmo quando a situação tensiona, ele busca humanidade. O resultado é de personagem que provoca, não pelo excesso, mas pela contradição.

Quando a novela vira espelho

Há atores que interpretam. Outros atravessam o personagem. Eduardo Mossri caminha nesse segundo lugar, onde memória, identidade e intuição se misturam sem precisar explicar demais. O que aparece em cena não é só técnica é história que encontra forma no corpo.
Foto: Rayssa Bratillieri
Há atores que interpretam. Outros atravessam o personagem. Eduardo Mossri caminha nesse segundo lugar, onde memória, identidade e intuição se misturam sem precisar explicar demais. O que aparece em cena não é só técnica é história que encontra forma no corpo.
Foto: Rayssa Bratillieri

A própria estrutura da novela potencializa esse jogo. Mossri entende a televisão aberta como espaço de alcance e impacto real: “A novela ainda é canal de comunicação de grande importância no Brasil”, afirma. Para ele, A Nobreza do Amor utiliza esse alcance para tocar em temas sensíveis sem recorrer ao discurso direto: “Parece historinha simples, mas toca em pontos muito delicados da nossa história”.

Essa potência aparece também na pluralidade cultural da trama. Ao reunir diferentes origens, árabes, africanos, europeus, brasileiros, a novela constrói mosaico que reflete a formação do país. Mossri enxerga valor nessa mistura: “A força está exatamente nisso. A gente é resultado de muitos que vieram antes”. Para ele, a narrativa não apenas retrata essa diversidade, mas reposiciona olhares, especialmente ao colocar África em lugar de nobreza, deslocando imaginários historicamente limitados.

Nos bastidores, esse olhar coletivo também se traduz no processo de criação. Mossri destaca a condução do diretor artístico Gustavo Fernandez como elemento essencial para sustentar o trabalho: “É jogo coletivo. Não é imposição. É diálogo”, afirma. Em meio ao ritmo acelerado de gravações, essa troca cria base sólida para que atores consigam arriscar, propor e confiar: “Se tem essa base, fica muito mais fácil brincar”.

E brincar, para Mossri, não é leveza superficial. É entrega total ao jogo da cena. Mesmo quando grava fora de ordem, mesmo quando precisa acessar emoções que ainda não viveu na cronologia da história, ele confia no processo: “Existe força que nos protege nesse processo todo”, diz. Essa confiança se reflete em cena, não como segurança rígida, mas como disponibilidade.

Do outro lado, o público reage. Julga, se posiciona, escolhe lados. Mossri observa isso com naturalidade: “A novela é uma grande brincadeira”, comenta. Ele sabe que Miguel ainda enfrentará rejeição, principalmente por ter tido cenas em que contrariou e duvidou da conduta da protagonista Alika (Duda Santos). Aliás, a cena em que ele pede perdão a ela foi imensamente bem construída e o diálogo bem montado pelos autores Duca Rachid, Júlio Fischer e Elísio Lopes Jr sabem demais o que estão fazendo.

Expectativas para o personagem

Miguel não entra em cena, ele chega carregado de história. Entre tradição, afeto e controle, o personagem se constrói no detalhe: no olhar que observa antes de falar, na pausa que revela mais do que o texto. Foto: @hello_helton
Miguel não entra em cena, ele chega carregado de história. Entre tradição, afeto e controle, o personagem se constrói no detalhe: no olhar que observa antes de falar, na pausa que revela mais do que o texto. Foto: @hello_helton

O que o interessa não é agradar. É sustentar o personagem dentro da lógica que o move: “Meu papel é defender o que está no presente”, afirma. E esse presente ainda reserva desdobramentos. Sem antecipar detalhes, ele aponta o caminho: Miguel seguirá insistindo no casamento da filha, acreditando que está fazendo o melhor. Mas o próprio ator deseja mais: “Queria que algo tirasse ele desse desejo cego. Que acontecesse alguma coisa que mexesse nas estruturas”.

Essa expectativa revela muito mais sobre a construção do que qualquer spoiler. Mossri busca contradição. Busca ruptura. Busca momento em que o personagem precise se confrontar com a própria rigidez: “Acho importante que ele pague um pouco a língua”, diz, rindo. Não por punição, mas por humanidade. Porque, como ele mesmo aponta, é nesse tipo de fissura que a vida real se manifesta.

Ao final, o convite que ele faz ao público é simples e, ao mesmo tempo, exigente: “Não parar na primeira impressão”, pede. Em tempos de respostas rápidas, A Nobreza do Amor propõe outro ritmo. Outro olhar. Outra escuta. E Mossri, com Miguel, ocupa esse espaço sem pressa, sustentando cada gesto como quem sabe que, ali, não está apenas interpretando.

Está lembrando. Está devolvendo. Está dando corpo.

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