Junção de Átomos: Fernando Bittencourt coloca jovem frente a frente com sua versão mais velha

Junção de Átomos Fernando Bittencourt coloca jovem frente a frente com sua versão mais velha

Foto: divulgação

Curta-metragem independente transforma encontro entre duas versões do mesmo personagem em reflexão sobre tempo, escolhas, saúde mental e o sentido da vida

E se você pudesse encontrar a sua versão mais velha? O que perguntaria? O que gostaria de saber sobre o caminho que ainda vai percorrer? É a partir dessas provocações que Fernando Bittencourt constrói Junção de Átomos, curta-metragem independente que, após passar por festivais e mostras no Brasil e no exterior, chega ao catálogo do Tela Plus.

A história acompanha o encontro de um jovem carregado de expectativas, dúvidas e inquietações com sua própria versão idosa. Em situação aparentemente simples, dois personagens em uma sala escura, surge conversa sobre escolhas, felicidade, futuro, expectativas e sobre aquilo que realmente estamos fazendo com o tempo que temos.

Em entrevista exclusiva ao Pittaplay, Fernando conta que a ideia nasceu de uma inquietação pessoal. Há bastante tempo, ele se perguntava o que faria caso pudesse encontrar a própria versão mais velha e quais perguntas gostaria de fazer.

A inspiração ganhou novo caminho quando o artista assistiu a um vídeo produzido com inteligência artificial que mostrava Cartola cantando “As Rosas Não Falam” em videoclipe que nunca existiu. A possibilidade de criar algo que poderia ter acontecido em outra época, caso determinada tecnologia estivesse disponível, ajudou Fernando a chegar à estrutura de Junção de Átomos.

“Isso foi me elucidando, até que eu cheguei nesse roteiro, unindo todas essas perguntas, vontades e provocações, uma situação relativamente simples, uma sala escura, você e sua versão mais velha, o que você perguntaria?”, explica.

Um filme sobre as inquietações de uma geração

Embora parta de situação fantástica, Junção de Átomos está interessado em questões bastante presentes na vida real. O curta aborda temas como psicologia, saúde mental e filosofia para questionar a busca constante por reconhecimento, dinheiro, status e validação.

Para Fernando, o objetivo não era entregar ao público a resposta pronta, mas criar experiência na qual cada pessoa pudesse se reconhecer: “Eu fiz esse filme para que elas se vissem na tela, angustiadas por estarem correndo atrás o tempo todo de fama, dinheiro, validação, status e etc.”

A reflexão também passa pela relação contemporânea com as redes sociais e pela necessidade de se destacar em meio à multidão. “Será que quando estivermos velhos, vamos olhar para trás e achar isso uma perda de tempo?”, questiona o cineasta.

Fernando faz questão de reconhecer que também está inserido nessa realidade: “Realmente vale a pena buscar exaustivamente essas coisas, sendo que no fim a vela vai se apagar do mesmo jeito? Me incluo nisso.”

Levar essas questões para narrativa curta foi um dos desafios do projeto. O artista conta que há muito tempo queria realizar uma obra de caráter mais existencial, já que tem interesse por psicologia e filosofia, mas ainda não havia encontrado uma história que permitisse trabalhar esses assuntos de maneira que considerasse interessante.

A solução veio com a premissa do encontro entre as duas versões do personagem. Para construir o roteiro, Fernando conversou com amigos de diferentes idades e voltou diversas vezes à pergunta que deu origem ao próprio filme: o que você faria ou falaria para você mais velho, ou mais novo?

“Qual o sentido da vida?”

Entre as questões levantadas pelo curta, existe uma que permanece sem resposta até mesmo para o próprio realizador: qual é o sentido da vida?

No filme, a versão mais jovem pergunta ao personagem mais velho qual conselho ele daria. A resposta é simples: “Seja gentil consigo mesmo, e aproveite a viagem.”

Para Fernando, porém, a frase também abre novas possibilidades de interpretação: “Isso é uma resposta? (risos). Será que a versão mais velha não respondeu algo mais concreto porque também não sabe o que dizer, ou porque é necessário que o mais jovem passe por isso tudo para aprender de fato as coisas?”

A dúvida permanece. E, para ele, esse é o ponto: “Creio que a pergunta que o filme deixa, e que eu não sei responder e nem sei se saberei algum dia, é: qual o sentido da vida? Ou como dizia 3 vezes o saudoso Abujamra no fim de todo programa: O QUE É A VIDA?”

Se pudesse realmente encontrar sua versão mais velha, Fernando também teria perguntas pessoais. Queria saber como estaria sua família, se teria filhos, como estariam seus sobrinhos e, principalmente, se teria sido feliz. Também perguntaria se existe algo para o qual deveria estar atento.

Fernando Bittencourt é o responsável por “Junção de Átomos”, curta que propõe reflexões sobre a vida, o tempo e nossas escolhas.
Fernando Bittencourt é o responsável por “Junção de Átomos”, curta que propõe reflexões sobre a vida, o tempo e nossas escolhas.
Foto: arquivo pessoal

Um trabalho feito de forma íntima

Junção de Átomos também nasceu de maneira bastante particular. Fernando concentrou em si grande parte das funções da produção: escreveu o roteiro, interpretou os personagens, filmou, captou o áudio e realizou a montagem.

A escolha foi intencional. Por se tratar de história tão pessoal, ele queria ter liberdade para construir o filme no próprio ritmo. Até mesmo parte do material de memória visto pelo personagem principal pertence ao seu acervo pessoal: “Queria que fosse algo íntimo, no meu tempo.”

Mas, mesmo centralizando a produção, Fernando percebeu que o cinema continua sendo trabalho coletivo. Sua esposa ficou responsável pela maquiagem que o transforma em sua versão mais velha, enquanto seu pai ajudou a realizar um travelling presente no primeiro take do filme.

A produção independente, no entanto, também trouxe dificuldades conhecidas por quem trabalha no audiovisual brasileiro: falta de investimento, falta de tempo e a necessidade de conciliar a produção artística com outros trabalhos para pagar as contas.

“Mesmo com todas essas dificuldades, eu prefiro isso a esperar o telefone tocar. Sinto que mesmo o filme não estando na prateleira do grande público, pelo menos estou mostrando meu trabalho, dizendo coisas que realmente penso para o mundo, tocando alguém, fazendo alguém refletir sobre o que falamos aqui e etc. No fim, eu acredito que essa é a função do artista.”

Cinema independente e acesso ao público

Depois de circular por festivais e mostras no Brasil e em alguns países do exterior, Fernando escolheu o Tela Plus para disponibilizar o curta-metragem. Segundo ele, a plataforma tem proposta de valorização do cinema independente.

Para acessar o curta, basta realizar um cadastro na plataforma para assistir gratuitamente. Quem quiser contribuir financeiramente com a produção também pode fazer uma doação pelo Pix indicado abaixo do card do curta.

Para Fernando, iniciativas como essa são importantes diante das dificuldades enfrentadas pelo cinema independente, especialmente em um mercado no qual grandes produções recebem investimentos e visibilidade muito maiores.

Ele também destaca a importância de políticas públicas para o setor e reconhece avanços recentes, embora considere que ainda exista um longo caminho a percorrer: “O público fica fadado ao que é exposto na vitrine mais cara, que nem sempre é o de melhor qualidade, e hora por indução, hora por preguiça, não tem curiosidade de buscar obras independentes.”

O próprio Fernando aproveita para agradecer o espaço dado pelo Pittaplay a artistas independentes: “Vocês dão espaço para quem precisa desse espaço, então meu muito obrigado por isso!”

Uma pausa para respirar

Hoje, Fernando define Junção de Átomos como um filme bonito, construído a partir de conflitos humanos e de muitas questões pessoais, mas que também refletem inquietações compartilhadas por sua geração.

Mais do que determinar o que o espectador deve sentir, ele espera que o curta provoque alguma reação, seja uma reflexão profunda, uma identificação ou simplesmente uma pausa: “Quero que quem assista reflita, ou sinta algo, sobre qualquer coisa que o filme diz, que seja tocado, seja de uma maneira profunda ou não, mas sinta, pare um pouco e respire.”

Junção de Átomos está disponível gratuitamente no Tela Plus.

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