Foto: Lilabi Fotografia
Quando Maytê Piragibe fala sobre protagonismo feminino no audiovisual, seu olhar vai além das mulheres que aparecem diante das câmeras. Interessa a ela entender quem escreve, dirige, produz, monta e participa das decisões capazes de determinar quais histórias chegam ao público. É dessa perspectiva que nasce Criativas, programa apresentado pela atriz no Canal Like, dedicado às mulheres que ocupam diferentes espaços da indústria audiovisual.
A atração integra a nova leva de programas originais lançada pelo canal nas comemorações de seus oito anos. A cada episódio, Criativas parte de um tema ou lançamento recente para percorrer trajetórias, obras e referências, resgatar produções importantes e apresentar profissionais que também trabalham nos bastidores, incluindo áreas como direção, fotografia e montagem.
Em entrevista ao Pittaplay, Maytê relacionou a proposta do programa a um movimento que acompanha há alguns anos na indústria: atrizes que passaram a buscar maior participação sobre os rumos das próprias carreiras e das histórias das quais desejam fazer parte.
“Tem esse movimento de diversas atrizes, principalmente americanas, mas também britânicas, cansadas nos seus espaços de só correr atrás de bons papéis, ser aprovada, passar no teste, correr atrás de direitos autorais. E aí vem esse movimento de pegar simplesmente a rédea da carreira: qual é a história que eu quero contar?”, afirma.
O protagonismo também acontece fora da tela
A própria trajetória de Maytê ajuda a aproximá-la desse debate. Depois de iniciar a carreira ainda criança e acumular trabalhos como atriz na televisão, ela passou a conhecer outras etapas do audiovisual por meio da produção, apresentação e curadoria. Entre os projetos desenvolvidos está o documentário Mise En Scène: A Artesania do Artista, disponível no Globoplay e dedicado ao processo criativo de atores.
Esse deslocamento entre diferentes funções ampliou sua percepção sobre o significado de ocupar espaços de poder dentro da indústria. Em Criativas, essa discussão encontra um formato capaz de apresentar ao público mulheres que participam diretamente da construção das obras, inclusive em profissões que raramente recebem a mesma visibilidade dos nomes estampados nos cartazes.
Maytê também chama atenção para uma contradição histórica. A televisão brasileira teve mulheres responsáveis por obras que atravessaram gerações, enquanto cargos de liderança e outros espaços de decisão permaneceram durante muito tempo majoritariamente masculinos.
A atriz defende que ampliar a participação feminina significa criar condições para que mulheres estejam presentes desde o momento em que uma história começa a ser pensada. Quanto maior a presença na direção, no roteiro, na produção e em outras funções criativas, maior também a possibilidade de que diferentes perspectivas encontrem espaço dentro das obras.
“Faltam microfones para essas mulheres”
Para Maytê, a mudança também depende de dar visibilidade a profissionais que já conquistaram esses espaços. A apresentadora observa que mulheres em cargos de comando ainda podem ser julgadas de maneira diferente quando demonstram autoridade, fazem cobranças ou sustentam decisões dentro de uma produção: “Faltam microfones para essas mulheres e a gente silenciar para ouvir elas e dar aplausos para elas sem julgá-las”, defende.
Criativas transforma esse pensamento em proposta editorial ao direcionar atenção tanto para artistas conhecidas do público quanto para profissionais que ajudam a construir uma produção longe dos holofotes.
Essa valorização também passa pela criação de redes entre mulheres. Maytê reconhece que um mercado com oportunidades limitadas pode estimular uma lógica de concorrência, mas acredita que ocupar um espaço ganha outra dimensão quando uma profissional também consegue abrir caminhos para outras.
“Esteja perto de mulheres e pessoas que, numa mesa de grandes oportunidades, vão citar o seu nome.”
A frase ajuda a explicar o protagonismo que Criativas pretende discutir. Para Maytê, chegar à mesa em que as decisões são tomadas representa uma conquista importante, mas existe um passo seguinte: participar das escolhas e contribuir para que outras mulheres também possam ocupar essas cadeiras.
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Criativas chega em nova fase do Canal Like!
O programa apresentado por Maytê Piragibe faz parte de uma expansão da programação original do Canal Like!, que passa a trabalhar diferentes recortes do audiovisual em atrações próprias.
Além de Criativas, a nova grade reúne Que Horror!, com Anne Braune e foco no terror; Made in Brasil, apresentado por Indira Nascimento e dedicado à produção audiovisual brasileira; Coadjuvantes, com Hugo Bonemer, sobre interpretações que ganham força mesmo fora do protagonismo; e Estreias, apresentado por Renato Hermsdorff, com os principais lançamentos do cinema e do streaming.
As atrações combinam lançamentos recentes com títulos de catálogo, referências e análises temáticas. Criativas ocupa nesse conjunto o espaço dedicado a observar o audiovisual a partir das mulheres que o constroem.
Depois de passar por diferentes funções ao longo da própria carreira, Maytê encontrou no programa a possibilidade de usar a apresentação também como ferramenta de curadoria. A cada episódio, o protagonismo feminino deixa de ser medido somente pelo espaço ocupado diante da câmera e passa a incluir algo que a atriz considera fundamental: quem possui voz para decidir quais histórias serão contadas e como elas chegarão à tela.
Jornalista, produtor audiovisual, crítico de TV, cinema e literatura e autor de seis livros. Apaixonado por novelas desde a infância, dedica-se há mais de uma década a analisar narrativas, personagens e atuações. É fundador do Pittaplay.
